Cadê ela?

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E alguém na rua virou pra mim e perguntou:

- Cadê ela?

Não sei, disse. Não sei, repeti. Não sei, gritei. A pessoa pôs a mão no meu ombro e eu senti uma vergonha horrível por começar a fazer aquele papel na frente dela – que mal me conhecia. Porém, alguém que sabia o quanto eu gostava de estar contigo e me fazia lembrar do quanto era especial aquele casal que a gente formava.

Fiz menção de sair dali, mas ela disse que se eu quisesse ficar e chorar, tudo bem. Caralho, eu fiquei puto. Comigo mesmo, claro. Sabe o número de vezes que eu já chorei olhando pela janela do meu quarto aquela imensidão azul do céu e imaginando teu rosto? Quase toda noite você me visita em sonho.

Ou melhor, pesadelo.

No último desses pesadelos, eu corria atrás de você. Literalmente. E você fugia de mim. Não sei o que acontecia, mas acabava te alcançando. No meio de um abraço, você fazendo aquela cara de despedida e eu pedindo “volta”, eu podia sentir todas as minhas forças sumindo do meu corpo. Acordei batendo no travesseiro e procurando você pela casa. Idiota.

Como eu vou dizer que eu perdi você a quem perguntar por nós dois? Como explicar que eu deixei escapar a mulher que estava disposta a encarar qualquer coisa comigo? Como fazer parar essa dor que, por mais rápido que o tempo passe, não some de mim? Eu sei porque te perdi, não preciso explicar nada pra ninguém e eu não quero dar “tempo ao tempo”.

Tenho quase todas as respostas, mas não quero ficar com a certeza de que a gente não tem volta. Vou me transformar na dúvida em sua cabeça até que você consiga afirmar pra si mesma que essa solidão a dois é besteira.

Vale a pena voltar.

(Gustavo Lacombe)

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Foco!

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Ela apareceu com uma blusa preta decotada que não me fazia querer olhar outra coisa. Cheguei a ficar com vergonha, porque tenho moral suficiente pra dizer que não sou desses homens que parecem nunca ter visto um par de peitos. O problema era o formato daquela blusa e o local estratégico em que ela tinha se sentado. Bem na minha frente e dizendo “vim com pressa, peguei a primeira blusa que vi no armário”.

Obrigado, seu Armário.

Sabe qual era a minha vontade? Um dica: não envolvia arrancar a roupa dela. Claro que não! Se ela ficasse nua na minha frente agora não teria graça. Aliás, perderia a graça. O jeito “me arrumei correndo” era a cara dela, mas eu sabia que Deus tinha abençoado demais aquela criatura. E me abençoado por ter a colocado no meu caminho.

Minha vontade era que fosse socialmente aceito que se conversasse com alguém sem olhar nos olhos da pessoa e que não fosse falta de respeito isso. Me controlei. Ela sorria, não sei se da minha cara de bobo ou por estar ali comigo (e eu torcia pra que fosse a segunda, mas era meio que improvável). Respirei, olhei uma última vez e decidi ajustar o foco para outra coisa.

O sorriso dela era ainda mais bonito que o decote.

Com o passar do tempo, fui percebendo outros detalhes que ela tinha preparado para aquela noite. A boca levava um batom vermelho que emoldurava o sorriso, o lápis de olho parecia fazer aquela castanhice olhar minha alma e o perfume dela poderia ter um fixador eterno em mim que eu não ligaria.

Acho que aquilo era quase uma prova de fogo. Não que eu ache que ela me largaria se notasse o quanto olhei pros peitos dela a noite toda, mas era exatamente para notar o que existia além daquilo. Um humor delicioso, uma conversa gostosa e uma das noites mais agradáveis com uma mulher inteligente e que, sabe lá Deus o motivo, gostava de mim. Realmente, aquela blusa poderia ter sido escolhida por acaso.

Nesse caso, obrigado, Acaso.

(GustavoLacombe)

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E Não foi Só por Amor

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Eu voltei. E não foi só por amor. 

 
 Quando voltamos a nos ver, tudo parecia diferente. Quer dizer, parecia que em diversos aspectos tínhamos voltado à estaca zero e estávamos nos conhecendo de novo. O que era uma grande bobagem, se você pensar direito. E o que é uma verdade maior ainda, se você pensar melhor. 
 
Voltar era como se estivéssemos entrando numa casa em que já tínhamos morado, mas com a certeza de que algumas coisas não estariam no mesmo lugar. É claro que, sem uma reforma, os cômodos ainda seriam os mesmos. Talvez a decoração é que já poderia ter mudado. Enfim, a sensação era de conhecer aquilo tudo e ao mesmo tempo esperar para ser surpreendido. E estar ali já era uma surpresa. 
 
Foi preciso aceitar muita coisa. Primeiro, eu carregava uma certeza de que a vida tinha seguido de algum modo do lado de lá. Então, quem veio nesse meio tempo não poderia importar. Se batesse o ciúme, o argumento “você não estava comigo” seria sempre válido. E, claro, você não quer ser cobrado pelo o que fez nem ficar dando detalhes da vida que levava longe. 
 
Sabia que passamos até pela fase da conquista novamente? 
 
A volta, por mais rápida que seja, é feita com a recuperação da confiança, com o restabelecimento das certezas de que o outro é, sim, quem você quer. Aquela coisa de cortejar, mandar flores (sem ser por desculpas), paparicar, sentir frio na barriga por causa do beijo. Tudo reapareceu. 
 
Demos sorte, admito. 
 
 Tivemos, principalmente, que ser francos em relação ao que queríamos. Não poderia mais haver enrolação. Quando disse que não voltei só por amor foi porque apenas esse sentimento não bastava. Existe mais no meio como carinho, respeito, dedicação. E, também, foi preciso entender que nem tudo se ajeita de uma hora pra outra. 
 
Eu queria ser o porto seguro. Queria fazer bem, fazer sorrir. Queria, principalmente, me libertar do que tínhamos sido. Não adiantaria remoer os erros passados. Vida nova, esse era o lema. E eu vi verdade do lado de lá. Voltei, mesmo com amigos, parentes e outras pessoas dizendo que era “perda de tempo”. Voltei, mesmo com tanta gente interessante que eu conheci e poderia ter me feito seguir um outro caminho. Voltei, mesmo sabendo do esforço que seria recomeçar. 
 
 Voltei, e não foi só por amor. 
 
 (Gustavo Lacombe)

Vestida de Noiva

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Acordei no susto. Bati a mão do lado esquerdo da cama.

Ninguém.

O coração acelerado e a incerteza do que era realidade ou sonho se confundiam. “Cadê ela? Cadê ela?”. Não adiantaria procurar ali, nem pela casa. Ter apenas a convicção de que ela estava dentro de mim não bastava. Ao contrário, era o suficiente pra apertar ainda mais o peito e levantar num sobressalto, levar as mãos à cabeça e pensar:

- Puta que pariu, o que tô fazendo!?

Já tinha se passado algum tempo. Não quero ter a precisão dos dias, mas tempo o bastante para que pesadelos como aquele estivessem se concretizando. Busquei o telefone na agenda, nada. Procurei algum amigo, algum contato que fosse o seguro bastante para fazer uma ligação e ter informações. Ninguém me encheu os olhos.

Não consegui comer nada. “A ficha caiu”, diria minha avó. Sim, caiu. Foi necessário todo aquele tempo, mas, principalmente, aquela merda de pesadelo pra eu ter a real noção da besteira que estava fazendo. Sem ter para onde correr, voltei à cama e me sentei à espera de uma luz. Ou um milagre.

Até que lembrei. Lembrei que, perdido em um dos bilhetes que eu recebi na época do término, a mãe dela tinha anotado o próprio celular com a mensagem “se precisar de qualquer coisa, me liga”.

Era a única chance.

Dois toques e a voz conhecida da ex-sogra diz “alô”:

- Dona Maria, eu não tenho muito pra conversar e espero que a senhora esteja bem. Me perdoa o nervosismo e a grosseria por sair atropelando tudo desse jeito. É que hoje eu tive um pesadelo. Estava na platéia vendo uma moça se casar e só vi o rosto dela quando o noivo levantou o véu. E era a sua filha e não era eu no altar. E, quando eu tentei gritar qualquer coisa pra interromper aquilo tudo, um convidado ao meu lado disse que eu não tinha direito nenhum agora. Que enquanto eu podia fazer alguma coisa, eu não fiz. Acordei assustado e com o coração na boca…

- Filho, calma… Ainda bem que você ligou.

Ela trazia uma luz. Ou um milagre.

[continua...]

(Gustavo Lacombe)

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Por que é Mais Forte Quem sabe Mentir?

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Aprendi que não se deve classificar as mentiras em níveis. No fundo, é tudo mentira. Ainda assim, existem aquelas que são perdoáveis, entendem-se e são vistas como besteiras compreensíveis. Do outro lado, encontramos aquelas capazes de destruir vidas, atrapalhar destinos e causar mau a quem as ouve e até a quem as guarda.

Mentir, no geral, é a pior das agressões a quem lhe entrega confiança. E não importa muito se você disse que ia a um lugar, foi a outro e não atendeu o telefone quando alguém ligou. Inventou uma desculpa, bolou uma mentira para se safar. Ainda que você não estivesse fazendo nada de demais, a mentirinha, se descoberta, pode ter consequências terríveis.

Porque não vai adiantar você argumentar. Mentira é mentira.

Vou deixar de fora o mérito de mentir para si mesmo aqui nessa análise. Acho que uma vida feliz passa, sobretudo, pela sinceridade que nós temos com os nossos sentimentos. Quando uma pessoa se porta dessa maneira, ela dá um passo para ser de verdade. Ela passa confiança, ela é confiável. Ela não diz uma coisa e faz outra. Ela não promete e não cumpre.

Aliás, ela não precisa prometer nada.

Acredito que estejamos nessa vida para evoluir. Aprender com os próprios erros é a melhor forma de entender que tudo que se faz tem uma consequência. Até a mentira mais boba e inocente. Agimos assim, às vezes, por não acreditarmos que a outra pessoa pode ser compreensiva. Outras, nos enrolamos com qualquer história inventada que nós mesmos começamos.Não é fácil elaborar exemplos.

Na dúvida, apostar na verdade é sempre o melhor passo. Ainda que ela machuque e estremeça a confiança, você vai poder contar com o fato de que foi verdadeiro. Pode ser um atenuante. Já a mentira, por menor que seja, sempre é culpada. Sempre é levada em flagrante. Não machuca, mata.

(Gustavo Lacombe)

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Costume

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Acostumar a gente acostuma.

Quando o cobertor é curto, o corpo cria o hábito de se encolher mais até achar uma posição em que a parte exposta não reclame tanto. É preciso dormir de qualquer jeito. Quando a cicatriz expõe um acidente, há quem faça uma tatuagem por cima, ou passe maquiagem sempre. Dá-se um jeito, principalmente, de conviver com aquilo na tentativa de ignorá-lo – mesmo aquilo tão presente e impossível de não ser notado.

Como a falta que o grande amor faz.

Então, claro que eu consigo sair à rua e encontrar meus amigos, minha família. Claro que eu posso me sentar à mesa, pedir meu chopp, matte ou seja lá o que for e conversar sobre as amenidades. Inclusive, eu posso continuar contornando meus problemas. A vida não para porque alguém pediu um tempo ou foi embora. Segue, às vezes, num ritmo mais frenético até. E, então, é claro que eu posso responder o “como você está?” com “tudo ótimo”. Ignorando o olhar desconfiado e dando a certeza com a minha fala segura, consigo seguir o roteiro e emendar um sorriso.

A gente acostuma.

A falta vai deixando de ser buraco e vai dando lugar a uma saudade que anda lado a lado, dando a mão na maioria dos momentos e preenchendo o vazio. Os lugares que faziam lembrar, agora simplesmente lembram, mas sem a necessidade de colocar a pessoa ali. As situações que remetiam aos acontecimentos passados e as músicas que serviam de teletransporte agora apenas acontecem. É o costume de alguém perguntar “e fulano?” e retrucar com o já ensaiado “ah… passou, né?”.

Pode até não ter passado, mas a gente acostuma.
Acostuma até a mentir dizendo que se acostumou a viver sem ela.

(Gustavo Lacombe)

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De Tudo um Pouco

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Acho que toda mulher tem sua hora pra ser fofa ou fria, menina ou mulherão, carente ou independente. Algumas tem uma queda maior por um lado, mas é certo que vivem de fase, mesmo que seja apenas para culpar a TPM. Há de tudo um pouco dentro de uma mulher. Ou, melhor, em todas há muito. Do sutiã de bolinha à lingerie preta que dá tesão em qualquer cara, sou a favor dela ser como quiser – contanto que seja bem resolvida com isso. O que acho não ser entendido muito bem pelos homens é o fato de que a mulher nunca é uma só. Existem várias dentro dela, e cada uma tem uma necessidade, uma vontade e uma urgência diferente. Ela pode querer amar, abraçar e ficar de conchinha. Ela pode querer dar, se arrumar e sair pela porta da cozinha. E ela pode não querer porra nenhuma. Sendo bem sincero, homem detesta encontrar uma mulher que não precisa dele. Mas é exatamente esse tipo de mulher que mais atrai muito cara por aí. Por que eu falei em tipos? Mulheres são plurais, mulheres são constelações inteiras, mulheres são todas as cores disponíveis no mundo – inclusive aquelas que não se vêem. Namora-se uma, convive-se com várias. Abençoadas estranhas infinitudes.

(Gustavo Lacombe)

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