Que se Chama Amor

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Você atende o telefone e meu coração dispara. Não por nervosismo da falta do que falar, mas porque eu sempre fico assim mesmo antes de começar dizendo “oi, amor”. É bobo, eu sei. Ainda assim, é o jeito estranho que me deixa o ouvido sensível à sua voz. Estremeço e reajo no milisegundo seguinte, quando meu corpo recebe um impulso nervoso traduzido na assimilação do fato:

Eu amo essa mulher.

Se deixasse a saudade me levar, então, acabaria passando pelo fio do telefone e sairia ao teu lado. Não sei se apenas palavras tem o poder de mostrar alguma coisa, mas se o simples gesto da ligação contar já está valendo. Essa coisa toda de distância – e não importa o tempo que ficam afastados dois corações que se amam, é uma complicação que chamada alguma consegue dar fim. Ameniza, ao menos.

Com a incrível capacidade que tem a sua ausência, me tornando atento a qualquer detalhe, peço uma risada sua e já relembro toneladas de outras vezes que rimos juntos ou que ouvi esse meu som preferido por algum motivo. O seu riso é minha alegria. E vou descobrindo outra absurda capacidade de ficar mais bobo a cada palavra que ecoa através do aparelho enquanto você me conta as novidades.

Ou, então, já se tornou loucura.

Cura? Não tem jeito. Porque mesmo a tua presença não mata a saudade toda. Essa mesma que logo invade meu peito assim que você parte. E reparte o momento entre a felicidade por te ter assim perto e o início da contagem de quando retornará. Nesse meio tempo eu vivo. Ou acho que vivo. Porque fui descobrir que sou completo contigo. Uma coisa meio maluca mesmo.

Que se chama Amor.

[ Gustavo Lacombe ]

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Segure-se

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Segure-se.

Não adianta sair correndo. Logo agora, que o silêncio pode estar fazendo efeito? Rapaz, se ela sente saudade, vai procurar. Se ela não procurar, é porque, na verdade, nunca foi saudade. Era só uma falta. Era um incômodo com o qual ela aprendeu a conviver. E posso te garantir: ninguém aguenta saudade.

Claro que há sempre a situação em que se limita a busca e lava-se as mãos diante de tudo que já foi feito ou vivido. Mas, repara bem, não é o caso de vocês. Nem de longe. Pode ser que esteja doendo, e eu entendo. Pode ser que esteja latejando, e eu entendo. Pode ser que esteja com vontade de chutar tudo pro alto, e até os seus mais contraditórios sentimentos eu entendo num momento desse.

Se tiver que perturbar ouvidos alheios, tudo bem. Amigos estão aí para nos suportarem nas crises. Se já nos suportam no riso, né? Tudo bem, nada de brincadeiras. Só leve o meu conselho em consideração. Se segure hoje, pra poder segurá-la amanhã. Principalmente se você acredita que isso é possível.

Não é maldade fazer alguém sentir falta da gente.

Ruim mesmo é a gente perceber que é com quem mais se gosta que menos temos valor. E isso, rapaz, já deu pra ver que não é o ocorrido. Às vezes, é preciso ser forte para aceitar que, até mesmo o momento que parece mais oportuno, é só a Vida pedindo para aguentar mais um pouco.

Firme, que o melhor está por vir.

[ Gustavo Lacombe ]

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Mais Quatro Anos, Talvez?

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Doeu, sim.

Ficar na frente da televisão ontem foi um grande sacrifício para muitos brasileiros. Alguns até continuavam a acreditar na virada histórica mesmo com o placar já desfavoravelmente desenhado. Soltavam alguns “vai, Brasil!” tímidos em meio a olhares de desaprovação. Engraçado acreditar no que parece impossível, né? Ainda assim, o que mais e chamou a atenção foi que, no momento em que o jogo pareceu definido, as mensagens que durante toda a Copa foram de descontração e prioritariamente sobre o Esporte, começaram a ganhar cunho político.

Chegaram a comparar a formação do indivíduo alemão com o brasileiro.

E não é que eu não concorde com parte do que tem sido dito, mas parece que o resultado de ontem serviu para “acordar” toda uma gente que estava hipnotizada durante todo o torneio. De uma hora pra outra a Seleção passou a ser responsável por tudo de ruim, ninguém valia nada e querem a cabeça de um por um.

Senhoras e Senhores, calma. Isso é futebol. A coisa mais importante dentre as menos importantes para aqueles que apenas o tem em suas vidas como uma torcida, uma paixão. A vida segue. Não se trata de assumir o discurso de que o importante é participar, mas chegamos longe de qualquer forma. Talvez sejamos aqueles espectadores que esperam por um determinado final de filme, mas ficam decepcionados com o que encontram.

Pensem bem. E se existe, então, a revolta pelo que houve e as associações com tudo que se passa nesse país, que pelo menos em Outubro nós saibamos votar. Que a vergonha tão dita por aí fique apenas dentro de campo, mas que na vida ainda tenhamos a cabeça erguida para seguir.

Vai continuar doendo, sim, para todos aqueles que acreditavam e queriam ver o Brasil campeão. Agora, temos quatro anos. Não para preparar um time, mas para, enfim, começar a cantar a música “Sou Brasileiro com muito orgulho, com muito amor” de verdade. Preparar a nação. Quem sabe, quando a Copa desembarcar na Rússia, poderemos ser um povo que não precisa misturar a derrota de uma Seleção no campo com Política, por mais que as duas coisas possam ter alguma relação.

Continuaremos a ser o país que organizou a Copa das Copas.

Continuaremos a constar nos resultados como uma das quatro melhores Seleções do Mundo. Só não podemos continuar a ser uma nação que reclama de tudo que aí está e não usa o melhor meio para mudá-lo. “Vai, Brasil!” ainda vão continuar dizendo alguns esperançosos, certos de que em 2018 seremos outro time.

Quem sabe outra nação também.

[ Gustavo Lacombe ]

Retratos

Retratos

Me pego olhando um retrato nosso e lembro da cena. Você irritada comigo, eu sem saber o porquê, e mais um daqueles dias típicos em que sobrava carinho na hora de fazer as pazes. Como eu te amava, me lembro. Dentro daquele abraço, do qual você tentava se soltar a qualquer custo, te prendia com a certeza de que não haveria mais ninguém para caber tão perfeitamente em mim.

E ainda não há.

Paro, reflito e te procuro ao meu redor. Não tem nada seu por aqui. Estou no trabalho e mal tenho tempo de continuar minha meditação em nós dois. O dever me chama. Tem dias que eu mal consigo tocar no celular. Nossas conversas, tão intactas no tempo, às vezes são lidas sem pressa nessas noites em que eu preciso dormir, mas me falta seu braço.

Não estou feliz, admito. Tenho, sem dúvida, momentos em que vejo seu sorriso e uma paz sem limites me invade. Talvez seja esse o significado de alguém nos fazer bem mesmo não estando tão perto assim. Fico imaginando como poderia encher seus ouvidos por uma meia hora sem conseguir contar tudo que se passa aqui dentro. E, mesmo assim, consigo resumir tudo numa única palavra.

Saudade.

Volto ao retrato, procuro algum outro. Acho um em que estamos sorrindo, daqueles dignos do seu comentário de “estou feia” – enquanto eu te acho linda. Nessa também me recordo de como eu te amava. E sorrio. Me rio. Me desconcentro. Me pego entendendo que te amava de um tanto que ainda sobra amor aqui dentro.

Pra mais foto. Pra mais sentimento.

[ Gustavo Lacombe ]

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Eu e ela

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Talvez, se eu soubesse o nome dela, algumas coisas seriam diferentes. Não ficaria imaginando aqueles olhos castanhos que me enxergam a alma sem saber quem os tem posse. Daria a sua dona, muito mais que um rosto, mas algo a mais para poder soprar por aí, rabiscar nos cadernos e falar baixinho antes de dormir. Talvez, se eu soubesse, eu não ficaria fechando os olhos e apenas repetindo de um jeito bobo: ela.

Dizem alguns que, às vezes, passa por aqui sem pressa. Pelo retrato falado do qual tanto descrevo, é capaz de a terem já dito. Pelo tamanho da impressão que deixou em mim, é bem provável que já tenha sentido que em algum lugar dessa cidade alguém a quer tão bem assim. Pelo tanto que penso nela, acho que ela já pode ter me visto por aí enquanto dormia.

E que seja em sonhos, claro.

Uma vez eu tive a chance de me apresentar. Foi uma dessas vezes que a gente se cruzou e eu, distraído, esbarrei sem querer. Ela deixou cair a pasta, eu apanhei. Pedi desculpas, ela sorriu. Me apaixonei (mais ainda), ela disse obrigada e partiu. E só a noite sabe o quanto eu rolei na cama pensando que poderia ter feito alguma coisa diferente. Queria a coragem de um beijo roubado, mas não tenho nem a incerteza da pergunta pelo nome.

Talvez, se uma conjunção de fatores se juntassem e me tornassem algo um pouco diferente, a esqueceria por estar certo de que paixões platônicas não precisam criar raízes. Poderia ser apenas uma simples atração. Poderia não ser nada. Poderia saber o nome dela. De novo me pego pensando nisso. Talvez, se eu soubesse, imaginaria nossos nomes juntos de alguma forma, mas não sei.

Então sempre escrevo: eu e ela.

[ Gustavo Lacombe ]

Educação não se aprende na Escola

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Não importa o valor da etiqueta do que você veste, do que você usa. Não importa o meio social em que você nasceu, se você teve o privilégio de um berço e a bênção de uma família capaz de prover mais que o suficiente para que pudesse crescer e se tornar o que quisesse. Não importa a sua cor, se tem cabelo liso e olhos sensíveis por serem claros. Nada disso te faz uma pessoa melhor. Pode lhe conferir status, atrair visibilidade ou até mesmo passar longe dos preconceitos que permeiam nossa sociedade. Pode ser.

Mas, que me desculpe quem acha o contrário, educação é fundamental.

Educação que não se aprende na escola. Se reforça, talvez. A verdadeira se aprende em casa. Se valoriza a cada “por favor” forçado pela mãe, nos “obrigado” esperados pelo pai e nas “desculpas” aos irmão, amigos e afins ante atitudes que mereciam, sim, o pedido de desculpas. E isso se ensina aos pequenos logo depois que eles aprendem o que é vontade. Vem assim que eles descobrem os seus limites e, por vezes, tentam quebrá-los. É quando entendem que cada ação tem uma reação. Uma consequência, e que tentar pular todas as barreiras pode ter um preço.

As situações podem ser pequenas. Um brinquedo que pegou sem avisar, entrar num ambiente sem bater na porta, pedir um copo d’água e não agradecer. Quando não se mostra que são pequenas palavras que podem fazer toda a diferença no tratamento, essas mesmas situações podem se transformar. A criança cresce, como a própria expressão já diz, mal educada. Não entende o valor de uma gentileza e, pior ainda, acredita estar certo em ser assim.

Entretanto, mesmo quando a criação não foi a melhor, é possível crescer com esses valores dentro de si. Sem querer estabelecer um ideal ou fazer apologia, mas até uma lixeira no shopping pode mostrar o valor de um obrigado. E, por incrível que pareça, as pessoas mais gentis que eu conheço são aquelas que não tiveram muita oportunidade, mas levaram e levam suas vidas da melhor maneira, sem querer passar por cima de ninguém.

Na vida, algumas relações serão conduzidas horizontalizadas (como o caso de ter colegas de trabalho, amigos, família, namoro), ou verticalizadas (relação chefe – funcionário, principalmente). E, antes de qualquer coisa, como já dito, nada torna uma pessoa diferente da outra, muito menos um cargo. Talvez a responsabilidade, o salário ou as oportunidades, mas somos todos iguais no final. A grande diferença que vejo, sempre, é o modo com que as pessoas se tratam. E isso é independente da posição que a pessoa ocupa em relação a outra.

O que acho necessário, cada vez mais, é atentarmos para como lidamos com o nosso ambiente e o que entregamos a ele. Claro que, quando ele nos dá amor, é mais fácil dar amor de volta. Quando ele é duro, é pior. Ainda assim, qualquer melhora ou mudança onde vivemos começa numa atitude nossa. Muito dessa atitude vem de nossa educação. Num mundo tão bruto em que quase todos os dias nos chocamos com as notícias dos jornais e da televisão, ser uma fonte de gentileza e educação pode fazer a diferença.

[ Gustavo Lacombe ]

Linha Solta

 

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Ficou uma linha solta, entende? Do tipo que você olha pra fora na camisa e tem vontade de puxar, mas algo depois te distrai e você esquece. Até que alguém mostra que ele está lá. Ou você percebe. E depois distrai. Fica num jogo meio bobo, mas deixa a linha lá por medo de estragar o resto da blusa.

É como ter um fato isolado na cabeça e saber que sua vida poderia ter mudado ali nele, mas – como todas as incompreensões da vida – acabou sendo rolado para o hall dos “e como teria sido se aquilo tivesse acontecido?”. E volta e meia você se pega pensando se, num desses efeitos borboletas que a imaginação permite, tudo teria saído como o esperado.

Teria?

Enxergo o mesmo sorriso agora. Até que ponto ainda é o mesmo? Sem dúvida a beleza ainda continua ali, mas o que aconteceu enquanto eu vivia o desvio que as rotas acabaram não planejando? Quer dizer, chamo de desvio por achar que nossos rumos poderiam ter seguido juntos. E sabe aquela linha solta?, eu fico olhando pra ela me perguntando se teria como colocá-la no lugar de volta.

O mais interessante (e estranho) é que eu fico refazendo os caminhos e me pergunto onde foi que não vi a possibilidade de entrar naquela porta. Fico remoendo isso às vezes sem nem ao menos ter a certeza de que a porta realmente existia. Entende? Receio que tudo isso seja uma ilusão criada por mim durante esse tempo todo.

E que a linha, na verdade, seja apenas um detalhe da costura que eu não me acostumei.

Não existe o arrependimento, nem mesmo a vontade de voltar no tempo. O que é de propriedade do passado não deve ser tomado dele. Entretanto, fica no corpo aquele ponto de interrogação sobre uma nova oportunidade. Sobe um arrepio e travo. Mesmo diante desse lindo sorriso.

Sorriso que, ainda nos devaneios, penso se pode ser meu.

[ Gustavo Lacombe ]

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