Crise de Vida

Ela morreu nos braços do namorado. Não era Julieta. Ele não era Romeu. O veneno era um projétil de chumbo que entrou pelo pescoço e lhe roubou a Vida. O ladrão nada levou. Além dos sonhos, das esperanças, das paixões e de tudo que ela, o namorado, os amigos e a família dela tinham pela frente, foi embora sem levar nada.

Mais um assassinato nesse Mundo de meu Deus.

Jogam-se fora todos os planos. Todos os dias – ela não foi o único caso daquele dia – buracos vão sendo feitos no peito de pessoas de bem. E, vejam só, nem mesmo as pessoas ruins merecem passar por isso. Porque você pode achar que não, mas até bandidos tem seus “queridos”. Se eles merecem sofrer pelo que fazem, que não seja por perder alguém que amam.

Alguém sorri no meio do velório dela lembrando de como ela sorria, de como ela brincava e lutava para “ser alguém”. Afinal, quem somos para esse país? A sociedade parece que agora se polarizou entre duas correntes que se odeiam e não percebem que é preciso achar soluções imediatas para maiores problemas.

Crise é ter que encarar um guarda-roupa cheio de roupas sem ninguém para vesti-las. Crise é ter que andar com medo de ter as coisas que foram conquistadas com suor de um trabalho duro. Crise é colocar um prato menos na mesa, uma carteira a menos na sala de aula, um abraço a menos na foto de formatura.

Crise essa que parece não ter solução.

A mãe agora tem raiva daquele papo de Destino. O pai se pergunta o que fazer para seguir. O namorado só faz chorar e não consegue aceitar. Nenhum amigo aceita. Quem ouve falar do caso, se lamenta. Quem vê no jornal, pensa “que pena, tão jovem, mais uma vítima”.

Mais uma que se vai. Só mais uma dentre as tantas que aparecem todos os dias nos telejornais. Quantos sorrisos ainda poderiam ser dados? Qual o tamanho da falta? Multiplicada pela tristeza, a conta se torna tão complicada que dar de ombros pro problema parece ser mais fácil.

Nunca será.

Salvador, Rio, Curitiba, São Paulo. Itabuna, Brasília, Goiânia. Manaus, Belém, Campinas. Não importa o nome da cidade, o estado, a cidade, as circunstâncias. Qualquer crime desse tipo é inaceitável.

Mais uma Vida jogada fora.
Até quando?

[ Gustavo Lacombe ]

Safafofo

Assim ele age: enquanto uma mão faz um carinho gostoso pela nuca e sobe pelo couro cabeludo (se transformando num leve aperto), a outra tateia as costas e procura pelo fecho do sutiã (que desliza sem dificuldade para ser aberto por dedos ágeis). Um misto do doce e rascante, como uma bebida gostosa e forte. Essa é a melhor síntese do cara que, enquanto fala algo no ouvido e arrepia a pele da mulher que gosta, não perde o lado atirado de tentar avançar até os limites impostos por ela.

É aquele cara que, enquanto elogia de verdade o corte do vestido, a cor de uma blusa ou algo a mais – um gesto fofo, não consegue deixar de reparar nas curvas que a roupa deixou marcada perfeitamente – um quê de Safa. Peitos, bunda e coxas. Ele viu tudo. Inclusive, reparou no cabelo arrumado, perfumado e com direito a um cangote bem convidativo para um cheiro, um beijo e um carinho – não necessariamente nessa exata ordem. Viu até as unhas, e não conseguiu evitar o pensamento de já pensar em tê-las arranhando as costas.

Ele se atenta aos detalhes.

Saber como tratar uma mulher é o mínimo pra ele. Abrir a porta do carro, puxar a cadeira, mandar uma mensagem perguntando se chegou bem, ligar no dia seguinte e se preocupar se a noite foi agradável ou não. Ele é cavalheiro porque quer agradar a mulher que julga ser merecedora daquilo tudo. E, também, entende que precisa valorizar o fato dela o deixar entrar um pouco mais em seu mundo.

Quando encontra os sinais verdes para mostrar seu lado mais atirado, então, deixa que uma personalidade bem mais atirada tome conta da situação. O prazer que topa viver dali em diante, sabe, tem que ser mútuo, mas o da parceira é bem mais importante se fosse colocado em alguma escala. A satisfação é prioridade da casa e, mesmo sabendo que nem todo dia é bom, alguns merecem a tentativa de quebrar a cama.

Chega de relacionamentos que quebrem a cara.

Ele se envolve, claro. Permite se mostrar frágil, humano. Se deixa levar por elogios, se sente vaidoso ao receber de volta todo o esforço que coloca numa conquista ou naquele namoro longo. Falível, entende que todos os erros do passado podem ter sido causados por muitos fatores, mas não foge da sua parcela de culpa em tudo que acabou estragado – e seria covardia fugir dela.

Longe de ser um príncipe, mas muito distante de um cafajeste, ele tenta reunir as melhores qualidades desses dois lados com a certeza de que um deslize sempre poderá ser fatal. Um lado pode acabar se entregando demais e servindo de trouxa na mão de algumas mulheres, o outro pode acabar sendo frio demais e apenas brincar de conquistar.

Um meio-termo seria a perfeição.

E, nessa história toda, talvez, o que ele deseja é encontrar alguém para quem possa se doar sem medo, se mostrar sem pudor e se revelar por inteiro. Sendo fofo no coração e na essência e safado quando lhe for permitido ser, levando seu jeito despretensiosamente divertido e leve de encarar a Vida. Se os românticos já são uma espécie em extinção, o Safafofo é, sem dúvida alguma, uma das maiores raridades do Planeta.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Eu Bem Que Te Avisei

Você pode ler esse texto ouvindo “Telefone”, de Tim Maia.

Eu te avisei.

Eu bem que te avisei que não queria me envolver, que não procurava nada pra me amarrar. Não que eu não pudesse, mas eu não queria. Nem quero. E você, agora, vem com todo esse amor pra me dar. Todo esse sentimento de graça. Eu gosto de você, mas não posso aceitá-lo. Eu não te prometi nada, entende? Não te jurei uma reciprocidade que não tenho pra te dar.

Me desculpa ser assim tão franco, mas se você já chegou ao ponto de ligar pra minha casa às quatro da manhã estando em pé na porta, é preciso ser mais sincero ainda. Não é um “sincericídio” porque não quero matar teu coração. Pense como uma libertação. Tá? Não fica puta comigo.

Se você quiser me xingar, eu vou até entender, mas você sabia. Sempre soube. No fundo, entre os seus lençóis amassados nas nossas noites gostosas e sexo sem pudor, você sabia que eu nunca fiquei pra esquentar a sua cama. Leva tudo isso como um tipo de recordação ou algo assim.

Ou, então, me esquece. Fala mal de mim pra quem você conhece, me acaba com as suas amigas. O que for preferível pra você. Eu bem que te avisei pra não levar tão à sério o que a gente vinha criando. Melhor arrancar o que tem agora aí contigo do que eu dar alguma corda. Depois você me cobraria e o cheque voltaria sem fundos, um Amor inventado e uma falta de interesse sonegada por querer apenas ficar mais tempo com o teu gosto e teu gozo.

Eu não posso fazer isso contigo.

E você não pode chegar me entregando todo esse carinho assim. Você não pode fazer isso comigo.
Eu bem que te avisei.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/GustavoLacombeTextos

É claro que ela não sabe que eu penso nela

Ela não sabe. É claro que ela não sabe que eu penso nela. Vê só se eu ficaria falando todas as coisas que eu penso pra ela. Ainda mais sobre ela.

É claro que ela não sabe.

É claro que ela não sabe que, quando eu vou deitar e fico ali naqueles segundos antes de dormir e mexendo no telefone, eu fico pensando pensando que a mensagem de “boa noite” que mando pra um amigo, eu queria que fosse pra ela.

É claro que ela não sabe que, quando eu acordo e vou desligar o despertador – claro, no telefone – a primeira mensagem de bom dia que eu queria mandar era pra ela. Claro que ela não sabe que no meio da tarde, quando eu paro pra um café, eu tô pensando nela.

Às vezes eu me sinto meio maluco, meio bipolar. Porque, no mesmo instante que eu penso, penso e penso nela, eu tenho ódio de mim por pensar nela. Mas aí, eu paro pra pensar de verdade, e tenho ódio de mim! Eu me detesto nessas horas porque, ao invés de falar, não, eu me guardo.

Vê se eu ia falar que eu penso nela.

Vê se eu ia chegar, escancarar o sentimento e dizer: olha, eu não consigo parar de pensar em você. E seria verdade… Eu não estaria mentindo. Ela não teria por que me julgar. Não teria por que olhar pra mim e dizer “eu não acredito”. Ela ia ver nos meus olhos que é verdade.

Ela ia ver nas minhas palavras. Engraçado isso “ver nas minhas palavras”, mas ela ia conseguir enxergar no meu corpo, na minha atitude. Ou, então, se eu escrevesse num papel dizendo “olha, eu não consigo parar de pensar em você”, eu tenho certeza que ela ia acreditar.

Ou não.

Ai, Dúvida. Isso é que me mata. Essa dúvida de me entregar, essa dúvida de me declarar. Você entende? Vê se eu vou dizer pra ela que eu sinto “saudade do que a gente não viveu”. Saudade do que não viveu… Pelo Amor de Deus!

EU ODEIO QUANDO EU LEIO ALGUM POETA DIZER:
“Eu tenho saudade do que eu não vivi!”

Mas eu tenho… mas eu tenho e não consigo parar de pensar nela. Não consigo parar de pensar nas coisas que eu faria. Não consigo parar de pensar nas besteiras e, às vezes, eu me sinto culpado porque eu penso nela de tantas formas, de tantos sonhos, de tantos desejos, de tantas vontades.

Já pensou se ela descobre?

Eu fico com o “não”. Sempre falam isso, né? Que a gente fica com o “não”, mas já pensou se eu conto pra ela e ela diz que sente o mesmo. Onde vai caber tanta felicidade? Talvez a gente às vezes tenha medo. Tenha medo de ser feliz.

E nem sabe.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Ser Gostosa Vai Além do Espelho

Tem dias que ela se sente. Literalmente. Coloca uma roupa mais colada e vai pra night sabendo que está gostosa. Sim, que “está”. Na cabeça dela, ser gostosa ou não é uma questão de dia da semana. É questão de se sentir bem com si mesma. Ela não é do tipo fresca e insegura, mas também não é daquelas que não tem crises. Tem dias ruins às vezes e sabe que toda mulher que se preze os tem.

Aliás, já enfrentou vários dias em que nada servia, que as blusas favoritas marcavam a barriga, que aqueles dois quilos a perder se transformavam em vinte e o quadril parecia enorme. Dias em que tudo parecia dar errado: espinhas brotavam em profusão e ninguém olhava pra ela. Como se fosse um patinho feio.

Quase quebrou o espelho numa dessas vezes.

Nos momentos mais exagerados e de sentimentos aflorados, ainda se deita na cama pra vestir uma calça que entraria mesmo se estivesse de cabeça pra baixo. Ah, e nem pense em lhe desejar um ‘bom dia’. Ela já pensou em botar silicone (e acabou botando), em fazer uma Lipo (e acabou não fazendo), em ter aula quinze vezes na semana com personal (chegou a 10), cortar carboidratos, virar vegetariana (mas adora um bom bife), e até a nunca mais comer chocolate (impossível!).

Ela teve de tentar de tudo um pouco até aprender que esses rompantes nunca passariam. Era dela. E que, na verdade, era preciso primeiro gostar de si mesma, se aceitar. Depois de uma viagem por Barcelona, passou a pensar em si como a Igreja da Sagrada Família: uma obra de arte linda, mas que sempre estaria em permanente construção. Nesse meio tempo, tentou yoga, Pilates, terapia e até aquelas mandalas para colorir.

Tentou ocupar a cabeça e se descobrir entre posições de flor de lótus e canetinhas variadas. Se achou na corrida e nunca mais parou.

Hoje sabe que, nos dias de TPM, vai se sentir horrorosa. Nos outros, pode se sentir a mulher mais deliciosa do planeta com apenas um elogio vindo de quem ama. Brinca dizendo que é complicada, como toda mulher, mas sabe que a beleza está além do espelho e do batom vermelho. Qual seria a graça em ser simples demais?

E não a tente decifrar, ela sempre te engole primeiro.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser pedido aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

Derrota Teus Monstros

Se você reparar bem, todas as analogias, metáforas, histórias e exemplos que deram certo vão falar sobre “fazer por onde”. Para se chegar ao pote de ouro, é preciso atravessar o arco-íris. Não se pode olhar pro céu com muita fé e pouca luta. E, aliás, só o que cai do céu é água.

É por isso que te digo: enfrenta tuas lutas, derrota teus monstros e conquista teus sonhos. Ninguém melhor do que você sabe o valor dos teus desejos. Ninguém melhor do que você sentirá o amargo de uma frustração.

Vença, mas – acima de tudo – vença pelo seu próprio esforço. Lembre-se de quem andou ao teu lado, agradeça a quem estendeu a mão e participou da caminhada. Muitas das vitórias podem ser apenas nossas, mas nunca são solitárias.

Acredite em você. Jordan tem uma frase incrível que diz “eu erro todos os arremessos que não tento”. Você perde toda oportunidade que não tenta. Paga pra ver.

Não se faça de vítima ou coitado. Existem pessoas que queriam estar exatamente onde você está. E lembre-se que de mais longe você já veio.

Repito:
Enfrenta tuas lutas,
Derrota teus monstros,
Conquista teus sonhos.

[ Gustavo Lacombe ]

Matar, Morrer e Amar.

Éramos uma confusão braços, pernas, pele e sons. Alguns inaudíveis, daqueles que na hora que a boca abre parece se esvair em qualquer outra coisa. Num arranhão por exemplo. Era uma salada de dois corpos que se queriam e tentavam à todo custo se saciar. Uma tarefa quase impossível em virtude do exposto: era uma batalha de prazer mútuo. Um queria fazer do outro vencedor, nós dois nos declarávamos vencidos pelo Amor.

E pelo tesão também.

Completava um dia e meio que não saíamos do quarto. A cesta que trouxera na véspera com frutas, pães e três garrafas de vinho tinha nos mantido até aquela hora.

Pra quem não está acostumado a essas loucuras feitas entre um casal apaixonado, poderíamos parecer dois animais em pleno cio. Para quem se cansa só de pensar em tanto sexo, poderíamos parecer dois atletas no auge de suas performances e dignos de medalha olímpica. Para quem entende que só um casal que se quer muito é capaz de cometer esses absurdos – e já viveu algo parecido com isso, éramos o exemplo perfeito de que a medida do Amor é amar desmedidamente.

Naquela suíte, naquela cama, naquele chão, naquela banheira, naquela cadeira, naquela coisa maluca de não saber de onde vem tanta libido. Um fogo perpétuo. Uma insanidade. Quando nos demos conta do tanto de tempo que já estávamos ali, começamos a rir.

Se alguém escutasse, certamente nos julgaria loucos. Mas já estávamos atormentando demais os vizinhos com a música e os gemidos. Éramos a certeza de que o hoje é preciso ser vivido plenamente.

Um dia e meio virando a o corpo e o coração de cabeça para baixo – e mais um monte de posições possíveis. Foi uma delícia, isso sim. A vontade que nascia do toque, morria na boca e renascia no olhar atrevido que um lançava pro outro. A poesia da dança, a prosa das frases clichês nos ouvidos e as surpresas repentinas dos gestos.

Éramos bem mais que duas pessoas apaixonadas, éramos dois loucos um pelo outro. Bêbados do vinho e suados do calor que emanava do outro. Eu poderia me deixar levar pra onde ela quisesse, contanto que pudesse levá-la junto. Na minha testa, certamente, deveria estar escrito “me usa”. Na dela um “me abusa” complementaria tudo.

E fazíamos o que mais queríamos ali: matávamos um ao outro de Amor e, por incrível que pareça, vivíamos ainda mais.

[ Gustavo Lacombe ]

– Textos, Ideias e Poesias –

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.961 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: