Declaração

Lucas comprou flores, colocou um cartão e se arrumou debaixo daquele sol fervente. Colocou no banco do carona no carro e foi embora. Atravessaria uma boa parte da cidade para poder se declarar, mas já tinha ensaiado tantas vezes, que o tempo entre a floricultura e a casa da amada era como o ensaio final. Usava uma camisa de botão azul listrada com branco, calça jeans e sapatos. O cabelo bem penteado, no tamanho que julgava o melhor e perfumado. Aquele homem tinha saído de casa sabendo que precisava causar uma bela impressão independente das que já tinha deixado antes. Era meio que tudo ou nada.

Entrou no condomínio de casas numa rua pouco movimentada. A quinta casa à esquerda, uma das maiores do lugar e com um muro altíssimo, a guardava. Bateu no portão, tocou a campainha e começou a suar. Por que isso agora? Tava tudo tão tranquilo, numa boa? Agora eu vou ficar nervoso? Ouviu o barulho de alguns passos e o tintilar da chave no portão. Aquele segundo gelou todo o ambiente que se umedecia do suor provocado pelos quase quarenta graus que faziam na cidade. Naquele instante, muita coisa se juntou. Lembrou de quando a viu pela primeira vez, dos primeiros beijos e foi passando pelo filme que muita gente vê antes da morte (pelo que dizem). Mas ali, ah, ali era a hora de começar a viver de novo. Dependia da resposta dela.

Primeiro ele emudeceu, lógico. Todo o homem perde a voz nessas horas. Depois não sabia onde colocar as mãos. Toda pessoa nervosa fica assim. Aí, vendo que ela esperava o que seria feito no segundo seguinte e já identificando o buquê na mão dele, saiu um “oi” bem tímido. Ela respondeu de volta, educada, dentro de um vestido bonito, com uma estampa floral que combinava com a luz daquele dia. Até que ele desandou a falar:

“Rafaella, tudo bem? Quer dizer, tô vendo que você tá bem. Você tá linda. A gente não se vê há quanto tempo? Uns vinte dias, né? Depois daquela briga idiota eu vi o quanto você faria falta pra mim. Infelizmente, sempre tem que existir um errinho bobo, uma briga, uma separação, um tempo, mesmo que continuemos juntos, pra gente ver o quanto deu mole. Não sei se andamos muito rápido em alguns momentos, se demos passos para os quais não estávamos preparados em outros, sei que todos foram válidos porque os dei contigo.

Trouxe esse buquê porque sei o quanto você gosta de flores e pra poder começar a compensar as que não te dei enquanto éramos um casal. Eu me considero um cara sensível, um cara que consegue enxergar as necessidades da pessoa que está ao meu lado, mas falhei algumas vezes contigo. Acontece. Somos humanos e acabamos por errar, certo? Me desculpa. Espero que nesses dias que a gente não se viu você tenha estado numa boa, tranquila. Eu senti sua falta, doeu, mas procurei me ocupar com outras coisas para me distrair. Bom, tá dando pra ver que não deu, né? Tô aqui.”

Quando acabou de falar ele estava muito suado. O nervosismo atrapalhava Lucas, mas logo entregou as rosas e Rafa sorriu. Ela o convidou para entrar, tomar um café, um água ou um suco, e aproveitar para conversar melhor. Sabia que existia muita coisa a ser debatida e esclarecida para aparar as arestas e ficarem juntos. Não disse nem que sim nem que não, apenas deu uma chance para eles se entenderem. O que sairia daquela conversa só eles poderiam dizer, mas era alguma coisa.

Às vezes, a gente quer uma oportunidade de mostrar que pode dar certo, não algo de mão beijada e uma confiança irrestrita. Tenha um pé atrás e conquiste a pessoa, mesmo que de novo, detalhe a detalhe, vontade a vontade e pouco a pouco.

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