Vai Dizer que o Tempo não Parou?

Vai Dizer que o Tempo não Parou? – Gustavo Lacombe

Não, imagina só: você se arruma todo, passou o dia pensando naquele encontro e, quando tá de cara com a pessoa, trava. Eu sei que todo mundo tem uma hora que fica tímido, que não sabe como agir, queria até não ter mãos, já que mal sabe onde colocá-las. Toda a tensão do momento está nos seus ombros e, quer saber, você não está aguentando mesmo. Fica aquela cara de bobo e nada anda. A vida empaca.

O pior de tudo é que a pessoa que está contigo, e que provavelmente passou por todas as mesmas etapas que você, não age. São duas timidez impedindo que toda a expectativa de antes não se realize. Duas pessoas, sei lá, numa boate, morrendo de vontade de dançar, mas com a mão no bolso. Ficam dando aqueles passinhos pro lado, dão um sorrisinho sem graça pro outro, e a hora vai passando sem que os dois realmente dancem.

Nessa hora, e que Deus abençoe os imprevistos, sempre acontece alguma coisa. Como diria minha avó, “É Batata!”. Se você tiver no restaurante, a comida vai cair na sua roupa, se você tiver caminhando na rua, você vai tropeçar, se você estiver fazendo qualquer coisa, outra fora do roteiro vai acabar quebrando o gelo. E você vão rir, vão querer passar por cima daquela tensão que estava no ar e a as coisas vão começar a fluir.

Veja bem, não é receita de bolo. Não sei se isso vai acontecer no minuto trinta e quatro depois que ele puxar a cadeira pra você sentar ou ela disser que vai ao banheiro e te deixar esperando (ela foi retocar a maquiagem e voltou mais linda ainda). Não, essas coisas podem até acontecer depois, num segundo encontro. Sei lá, se a gente nunca sabe quando vai encontrar o caso, não tem nem como determinar se ele vai mesmo aparecer.

O mais importante é tirar proveito da situação. Se já existe toda aquela atmosfera que une as duas pessoas ali, no mesmo lugar, com o mesmo propósito de passarem o dia, a hora, a noite, um tempo juntas, é quase um jogo ganho. Lógico que a gente se decepciona, encontra alguém e não é nada daquilo que a gente esperava ou, até mesmo, conhecia. Acontece. Mas se existe a vontade de estar na presença da outra pessoa, nada pode impedir. Quer dizer… um monte de coisa pode, mas não hoje, por favor!

E então (ufa, finalmente!) o Universo age. Por algum motivo você puxou um assunto, a pessoa se interessou e vocês estão conversando descontraídos. Uma mão toca a outra, um olhar cruza com o outro e há uma sinergia ali. O peso nos ombros se foi, a expectativa fez sentido, mas já não traz nervosismo nem atrapalha. Um, dois, três risos juntos. E não mais que de repente, tudo pára.

É possível ouvir as engrenagens que movem o Mundo entrando em estado de repouso. A barulheira em volta se transforma em silêncio, ou o silêncio se transforma de breu. Apenas dois corpos se destacam e se mexem, lentamente, em direção ao outro. Fechando-se, os olhos preparam o terreno para a conclusão épica do que foi aquele dia. Ou a abertura do que será aquele caminho. As bocas se encontram, se confundem e, depois de alguns segundos, tudo volta a girar.

Já em casa, sozinho entre os móveis e a roupa jogada numa cadeira que serve de cabideiro, você volta a pensar naquela sensação. Muito louco isso. Poderia jurar que, realmente, a vida ao redor travou e ficou observando vocês dois. Você, que nem reparou no relógio que estava usando, tira-o e coloca em cima da mesinha de cabeceira. Estranho era ele não estar funcionando. Um arrepio sobre pelas costas ao ver os ponteiros travados. Não havia dúvida: até o tempo tinha parado naquele momento.Image

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