Diziam…

Diziam – Gustavo Lacombe

Meus amigos diziam que ela era perfeita pra mim. Diziam que ela era parecida comigo, mas tinha um melhor gosto musical. Comentavam que o jeito que eu levava a vida era parecido com o dela. Me preocupei quando disseram isso. Eu queria encontrar alguém interessante e, de verdade, eu não me achava tão interessante assim. Alguém que tivesse uma vida parecida com a minha seria tão entediante quanto.

Eles riam. Eu respondia com aquele típico “por que vocês não ficam com ela então?”. Alguns retrucavam dizendo que até ficariam, mas que nunca tiveram chance. Outros que ela não era daquelas que ficava com os caras nas festinhas. Que não precisava beijar alguém pra se divertir. Feito eu, que por vezes ficava só no refrigerante a noite toda sem me importar em chegar nas meninas. Esperando uma certa, ou pra aquela noite ou pra outra noite.

Admirava o sorriso dela. Sempre que a gente se encontrava, e trocava aqueles olhares meio sem graça, reparava que ela sempre vinha com um sorriso à tira colo. Ah, sobre os olhares, acho que eu é quem ficava assim, sem reação. Ela cumprimentava, falava e agia normal, me tratando bem como tratava a todos. O tanto de coisa que falavam dela pra mim tinha me deixado esquisito nos nossos encontros casuais.

Não que eu não a achasse bonita. Pelo contrário, ela era daquelas que eu sempre via entrando pelas portas e me pegava olhando, mas depois notava que era ela e dava de ombros. Eu via outros caras olhando. Eu não conseguia deixar de reparar ela sendo assediada. Eu não pude evitar uma ponta de ciúme quando, numa dessas festinhas que juntava os amigos, ela ficou com outro. Ela era perfeita pra mim, diziam. Eu não soube dizer se foi ciúme nessa vez.

Talvez por eu nunca ter dito nada, não desconfiei daquilo. Aliás, não tinha – mesmo – como prever. Eu, tão acostumado a ficar na minha, de repente me vi sendo puxado pro canto de uma pista de dança por um daqueles amigos que repetia sem parar “tem alguém querendo falar contigo”. Não preciso nem dizer que eu gelei quando ele me largou na frente dela, com aqueles olhos castanhos que pareciam não saber o que dizer.

Aliás, sabiam:

– Minha amigas andam falando que você é perfeito pra mim.
– Sé-sério? – perguntei gaguejando e nervoso
– É. Tem um tempo. E eu andei pensando bem nisso.
– … – eu não sabia o que dizer – Pensando em mim?
– É. E você não tem saído da minha cabeça.

Eu não soube dizer mais nada. Senti a respiração dela chegar mais perto e depois tudo ficou preto. E molhado. E perfeito.

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