Cafeína

Cafeína – Gustavo Lacombe

A vida tem isso de nos fazer encontrar sem querer umas pessoas pela rua. Engraçado porque vizinhos podem passar um bom tempo sem se ver, enquanto velhos amigos podem, por obra do destino, se encontrar ocasionalmente mais de uma vez sem combinarem. E, nessa linha, por que não se reservariam encontros aos amores?

Quando entrou no Cafeína, em Copacabana, pronto para pedir um capuccino, Carlos ficou mudo. A vira de costas, mas as costas eram o suficiente. Os ombros mais largos que o comum de quem sempre (e ainda) frequentava aulas de natação, o cabelo cortado curto (mas nada de chanel), as pernas de fora dando altura a um vestido que caía bem. Parece absurdo, mas ele a reconheceu de costas.

– Sílvia? – ele a chamou ignorando o ensinamento de que nunca se deve fazer uma abordagem a uma pessoa que está de costas. E daí? Era a Sílvia na frente dele.

A morena se virou. Usava um daqueles óculos grandes que, na minha modesta opinião, não ficam bem em qualquer mulher. Ficavam ótimos nela. Parecia não ter envelhecido nada. Aliás, pelo sorriso que ela abriu ao ouvir a sua voz, pôde notar algumas marcas nos cantos dos olhos. Enfim, continuava linda.

O ar fresco daquela tarde agradável no Rio cismava em bagunçar o cabelo dele. Entre os dois beijos e alguns sons emitidos para demonstrar surpresa pelo encontro, logo se sentaram numa mesa para cada um tomar sua bebida. Ele contou rapidamente do que tinha e estava fazendo da vida. Ela, sem precisar mencionar o anel que ostentava na mão direita, disse que estava vendo móveis para a casa nova e resolveu parar um pouco para descansar.

E acabaram se encontrando. “Olha que coisa…”, ela repetia.

Falaram-se um pouco mais e ele logo deu uma risadinha brincando com o café dela. Sabia do efeito que a cafeína causava nela. Ficava elétrica. Ela também riu. Disse que sim e fingiu não ouvir quando ele confidenciou: eu ainda lembro um monte de coisas de você.

Passou batida, mas ligou um sinal amarelo. Trazer à tona algumas coisas acabariam estragando um prazer raro nos dias de hoje – encontrar um ex e não querer pular no pescoço dele, mas abraçar e ser amigável. Quem olhasse de longe, poderia jurar que tinha sido marcado. Não sei, mas acho que em algum lugar um apontamento entre dois corações já cruzados tinha sido esquematizado. Frente a frente, poderiam apenas ter certeza.

Ao fim da xícara, ela se levantou rapidamente, agradeceu o acaso por aquilo tudo e deu um último sorriso na direção dele. Ainda sem entender a saída repentina, Carlos se levantou e saiu atrás dela.

– Foge comigo.
– Quê?
-Foge comigo. Ou foge pra minha vida.
– A gente não tem mais vinte anos, Carlos.
– A gente não tem mais tempo a perder.

– Que tempo, Carlos? Você me encontra sem querer e vem falar em fugir? O que se passa na sua cabeça? A gente nunca mais se falou. Você sumiu.

– Você sumiu.

Aquilo não ia dar em nada.

– Como você tá? – ele insistiu
– Bem. Acabei de falar isso pra você no café.
– Eu sei, mas foi um “bem” superficial. Quero saber de verdade. Em que pé está a sua vida?
– Noiva, apaixonada e construindo algo que você, um dia, prometeu pra mim e nunca cumpriu.
– Ainda dá tempo.
– Não. Não dá.
– Qual seu telefone?

Ela sorriu de lado, como quem não acreditasse na pergunta.

– Meu telefone ainda é o mesmo, meu endereço ainda é o mesmo.
– Seu rosto – ele interrompeu – ainda é o mesmo, seu corpo, seu cheiro. E seu amor?
– Eu não vou te responder isso.

E nem precisava.

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