O Entendedor

Eu não entendo as mulheres, eu entendo da minha mulher. E pode ser que, por exatamente ser uma delas, ela tenha vontades, desejos, anseios e outra série de questões parecidas com a de outras mulheres. Não que mulher seja tudo igual, mas se tanta gente se identifica e se encontra nas histórias dos filmes, músicas e telenovelas, é porque em algum aspecto somos, sim, um tanto parecidos. Mas a Lúcia é diferente.

Lúcia acorda sempre às 6:30 sem despertador nos dias úteis e aos fins de semana se permite rolar na cama até às oito. Agradeço a Deus todos os dias pelos seus pés de veludo e seu jeito delicado de levantar. Já são vinte e sete anos podendo dormir um pouco mais que ela, salvo exceções. Não que sair antes para trazer um café na cama seja rotina, mas um agrado de vez em quando ajuda a suavizar os efeitos do tempo.

E ela adora ser agradada, não mimada.

Você não entendeu errado. São vinte e sete anos. Nesse meio tempo, foram cento e oito escovas de dente (trocadas de três em três meses assim que as primeiras cerdas se entortam), vinte e três jogos de cama, lençol e fronha (compradas com periodicidade suficiente para que ainda servissem para doação), e seis carros diferentes (trocados sempre que completavam cem mil quilômetros rodados). Todas essas renovações eram culpa dela.

Lúcia tem essa mania de renovar as coisas.

Tanto é que, quando fizemos vinte e cinco anos de casado, ela fez questão de renovarmos os votos. Numa época em que as pessoas descasam porque a outra deixa a toalha em cima da cama por mais de trinta segundos, a gente vem se virando bem com essa coisa de meio termo. Ah, só pra constar, a Lú detesta toalha embolada em cima da cama. Por isso eu deixo na cadeira mesmo. Num relacionamento, um lado sempre tem que ceder e eu venho cumprindo bem o meu papel.

Ela é bem humorada, mas acordava de ovo virado quando estava de TPM. Agora entrou na menopausa, mas continua acordando alguns dias assim só pra não perder o costume. Ela diz que TPM é um estado de espírito. Ama música, mas não gosta quando eu corto o assunto e começo a cantar. Geralmente faço isso no meio de uma discussão pra poder não falar mais nada. E como quem cala consente, eu canto.

Tem sempre um livro na bolsa. A estante do quarto já não tem mais espaço pra tanta brochura que ela volta e meia pega e lê de novo pra um clube do livro que ela fundou com umas amigas de colégio. De colégio, sim. “Trinta e nove anos de amizade, querido”, ela me diz em tom de deboche por eu não ter conseguido cultivar nenhuma amizade dessa época. Ela tem seus dias de debochada, de sonsa.

Mas, isso, todo mundo tem.

Tem vezes que ela deita na rede da varanda e se deixa olhar. Eu meio que me escondo, mas depois de tanto tempo, ela aprendeu a se fazer de paisagem pra que eu admire. E a Lúcia adora que eu olhe pra ela com cara de namorado. Ela soube envelhecer. Não quer ter a idade que não tem. Cultiva marcas de felicidade no rosto e deixa que o pilates e a caminhada dêem jeito no resto. E eu olhando ela na rede. Linda, num balançar preguiçoso de quem é amiga do tempo.

Ela diz que me ama. E diz desde aquele fatídico sorvete na esquina da casa dela – há trinta anos -, quando esfregou um potinho inteiro de baunilha na minha cara depois de uma briga entre ela e uma ex minha. Em meio a um xingamento de estúpido pra mim, deixou escapar um “como é que eu consigo amar uma pessoa assim!?”. Eu fiquei meio atordoado com tudo. Resultado? Larguei uma pra casar com outra. Eu sei que a vida é feita de escolhas. Meu nariz cheira baunilha até hoje, essência do creme de mãos dela.

Eu digo que a amo. Digo quando ela precisa ouvir isso, quando não precisa. Quando ela volta do trabalho com cara de cansada ou quando sai do banho refeita. Quando ela faz um almoço, quando compra pronto. Quando vai dormir, quando acorda. Quando a gente só dorme, quando a gente faz amor. Quando ela discute e fica mais bonita ainda, quando ela chora vendo um filme e eu preciso consolá-la.

E, quando não digo, tento traduzir em gestos. O “eu te amo” está nas coisas pequenas. Tudo bem que um anel pode gritar lá de dentro da caixa, mas é no sussurro de um chá feito especialmente pra ela que eu tento aquecê-la com o meu amor.

Eu mal falei dos meninos, né? Como eu disse, esse texto é sobre a Lúcia, não sobre mais ninguém. Só que é impossível falar disso tudo sem frisar como ela cuidou bem das crianças. Que agora já estão morando fora, mas serão sempre crianças. A Renata é igual a mãe. Linda. Eu sou péssimo para descrever traços, mas elas não gostam quando eu brinco que são cara de uma e focinho da outra.

Lúcia não suporta brincadeiras bobas, mas guarda as suas próprias na manga.

Já o Pedro, ela diz, puxou demais a você. E fala isso olhando pra mim de lado, como se quisesse falar da minha vida de falta de compromisso com horário para o trabalho. Eu argumento que escritor escreve quando a ideia vem. E a maioria delas não respeita o horário normal de 8:00 às 18:00. Taí… talvez seja por isso que eu não a escute levantar da cama.

Nossa, se deixar eu falo até amanhã dela. Nada foi fácil. Quem disser por aí que casamento é uma coisa tranquila, é porque nunca casou. Um conselho para as novas gerações? Lúcia sempre diz “não casem”. É preciso entrega, é preciso vontade. É preciso saber que uma briga não é o fim do mundo, apesar de o precipício parecer bem perto às vezes. É preciso saber que qualquer maré boa pode ser afetada por um acontecimento ruim. E um corte, por menor que seja, sempre pode infeccionar.

Entender o outro – e não é só saber que ela gosta de água morna, Brahma gelada, pilates, polenta frita, ar condicionado a vinte e dois graus, Búzios, Santa Rita, Flamengo, feijão em cima do arroz, chá de camomila, toalha estendida, roupa nova, lírios, e coisas de baunilha – é complicado. Eu ainda me surpreendo com alguns gostos dela, esquecidos ou adquiridos.

E eu ainda me surpreendo todos os dias por olhar pra ela e descobrir que me apaixono cada dia um pouco mais. Deve ser essa mania dela de renovar as coisas. Faz sempre isso de eu cair de amores. Mesmo depois de vinte e sete anos de casado. Ah, isso foi o que ela disse no dia das nossas bodas e renovações de votos de casamento:

– Eu, como toda mulher, sempre desejei encontrar um amor. A vida acabou me dando você. Mais que um amor, um pedaço de mim sem o qual eu não saberia viver.

Ainda bem que eu já tinha falado, porque fiquei mudo. Calado.
E quem cale consente.

( Gustavo Lacombe )

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