Sem Graça

Tá tudo tão sem graça sem você. Ê, distância maldita. Fico olhando pro teto imaginando que você poderia entrar pela porta do meu quarto e me atacar, embolar suas pernas nas minhas e jogar o lençol pra cima, fazendo ele de cabana sobre as nossas cabeças.

Isso não vai acontecer.

Você deve estar agora dentro de um ônibus voltando pra casa depois do trabalho, ou dentro de um avião saindo de férias, sei lá. A gente não se fala há um tempo e não tem como eu precisar a sua rotina. Não mais. Eu ainda te conheço, ainda imagino quais caminhos e quais passos pode estar dando, mas a direção exata que seguia comigo se perdeu em algum pra sempre que agora só está rodando em nossas memórias.

Não gosto de confessar as coisas, nem de me mostrar vulnerável. Eu sabia que esse dia chegaria, mas adiei ao máximo admitir que finalmente tinha me abraçado e começado a caminhar comigo. Não é nem arrependimento, muito menos culpa. É vazio. É uma sensação estranha de querer estar com alguém que já foi muito mais do que uma simples vontade – era realidade, só que hoje é lembrança.

É confuso, Pequena?

Ainda chamo teu apelido pela casa e, num instante, não sei se sou eu falando ou o eco das paredes repetindo a saudade pelos cômodos. Incomoda. Muito. Nem quero pensar se de onde você está algo parecido acontece. Aliás, mal sei se me esquece ou xinga ou lembra ou me quer. Tenho medo da resposta assim como tenho medo de te encontrar na rua e te ver com outro.

Tá tudo tão sem graça. A hora que passa enquanto eu sou um corpo em frente à televisão me pergunta se não valia a pena tentar ligar no seu celular. Vai que o número é mesmo. Melhor não. Entre outras coisas que eu preciso melhorar, tenho que saber como engolir o orgulho, dissolvido com o medo já dito.

Maluco isso.

Eu aqui em casa, com o seu retrato na mão e falando como se pudesse meu lamento chegar no seu ouvido. Sou um bobo. Sou um tolo que deixou escapar o amor que hoje julgo mal vivido. Eu ainda quero tanto contigo. Volta pra moldura. Me olha daí da prateleira.

Me guarda, me olha e, mesmo que apenas em sonho, me aparece e me beija.

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