Desmandos

Depois daquilo, você sumiu. E eu sei que você sempre faz isso de propósito. Sei que, quanto mais você manda seu coração me esquecer, mais ele desmanda e não te obedece. Não é privilégio seu. O meu faz o mesmo. Parece impossível arrancar um ao outro do peito. E é. Engraçado porque, ao mesmo tempo que entramos nesse hiato, nos ligamos ainda mais ao pensamento do outro.

Como se a gente se afastasse só pra ter que lembrar o quanto se gosta.

Você se esconde numa parede de vidro. Eu continuo te vendo apesar dos seus esforços. Ainda sei como pensa, como age. A recíproca também é válido. Minha previsibilidade te diz aonde vou, onde estou, o que faço e o que deixo de fazer. No fundo, é apenas uma tristeza matando uma história. Bonita ou não, sofrida ou não – é a nossa história.

Por telefone é fácil. Você espera um, dois toques e sabe que vou atender logo. Por mensagem, então, melhor ainda. Ou qualquer outro meio que junte as suas palavras (faladas, escritas, digitadas, codificadas) com a sua falta de coragem de me encarar. Sem me ver, sem olhar meus olhos, fica tranquilo dizer “tchau” – ainda que seja tão difícil como diz.

Eu quero ver você falar ao vivo. Quero ver. Quero te ver. Quero sentir, cara a cara, frente a frente, que é isso e não tem mais volta. Quero ouvir da sua boca sem filtros, fios ou telas: eu não te amo mais. Duvido. Se eu não duvidasse e não te amasse mais, aceitaria numa boa. Mas é justamente o contrário.

Não vou me convencer. Enquanto você não fizer isso, vou jurar de pé junto que a gente ainda tem salvação, futuro. Nessa distância não tem despedida, não tem recaída, não tem entendimento, não tem credibilidade. Entendo porque queira sumir um pouco. Você já fez isso antes, mas precisa acontecer um encontro. Talvez aí, olhando pra dentro de mim e repetindo tudo isso que já disse, eu entenda.

Mas eu duvido muito que consiga.

( Gustavo Lacombe )

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