Acordei, bati a mão do outro lado da cama e encontrei o lençol embolado. Detestar acordar seria algo muito forte de dizer, mas o que senti se assemelhou a isso. Não gostei, não curti. Porque pior do que abrir os olhos no sentido denotativo é descobrir que se teve de fazer o mesmo no conotativo. E eu esperava que aquele sonho durasse mais do que o tempo que tinha me roubado.

Grande parte é minha culpa. Ainda que as palavras se ofereçam para entrar pelo ouvido e fazer a cabeça, só uma liberação expressa de nós mesmos dá o livre-trânsito para elas. Não há arrependimentos. Não há tristeza. Às vezes, é seguindo sem querer por uma contra-mão que se tem noção de qual caminho não seguir. Queria que ele tivesse seguido comigo. Ainda que gostasse da vista, eu ainda era uma contra-mão.

Todas as vezes que repeti aquela pequena palavra – três letra e um sentimento tão grande – eu tremi. Sabia que poderia acontecer o que aconteceu exatamente. Acordar. Ainda levantando da cama, sem peso no corpo e na consciência, balbuciava baixinho “meu, meu, meu”. Não foi de todo mentira. Não era, no entanto, tão verdade assim.

Pareci uma boba, mas quando se está apaixonado torna-se em parte assim. Deitei na cama de novo, fechei os olhos e, num instante de fé, pedi que quando abrisse os olhos o visse. Inútil. Já tinha acordado, já tinha visto. Mais: já tinha sentido que aquela era a saída que tínhamos encontrado. Ou que ele tinha me dado sem que eu quisesse.

Eu repetia – baixinho pra não despertar meu coração – “meu, meu, meu”. Queria ter acordado podendo repetir isso em voz alta. “Meu”.

( Gustavo Lacombe )

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