A Falta de Ser Mulher

Ela, trinta e poucos anos, dois filhos. Alguns quilômetros de corrida na areia da praia pra manter a forma, um marido zeloso, atencioso e alguma satisfação com a vida. Confidencia, às vezes, que só o que tem não basta. Ou, como gosta de dizer, apenas o que é não cabe. Psicóloga, mãe, dona de casa… Algumas de suas amigas não cansam de repetir que ela reclama de boca cheia. Fazer o quê, né? Só ter gente pra tratar, criança pra vestir e roupa pra lavar não preenchia todos os requisitos da plena felicidade.

Sentia falta de ser mulher.

O casamento tinha entrado numa fase terminal de falta de sexo, não de amor. O carinho sempre existiu e ainda existia. Não eram raros os momentos em que ocorria um mimo, um agrado, mas algo sempre acontecia para dificultar as coisas. Ter dois rebentos pra cuidar também não ajudava muito. No começo, recorriam a babás ou avós. Depois, passaram a depender da creche e das agendas alteradas para conseguirem escapulir para um motel às onze da manhã.

Entretanto, era muito trabalho para pouco tempo que podiam ficar juntos. Acabou começando a ter falta de interesse em ter toda aquela dor de cabeça. A partir de um certo ponto, ela não sabe se ele se contentou com os encontros no colchão espaçados ou se, na verdade, arrumou outra na rua. Sua mãe já tinha cansado de dizer que homem era assim mesmo. Se não tivesse em casa, procuraria o que quer em outro lugar. Tão mais fácil ser homem, né?

Ele, vinte e muitos poucos anos. Ainda estudante. Sair da casa dos pais? Pra quê?, perguntava. Andava de ônibus pra cima e pra baixo, curtia a vida correndo sua volta diária na Lagoa Rodrigo de Freitas num interminável fôlego de sete quilômetros em quase trinta minutos. Responsabilidade beirava zero. Naquele dia, motivado pela promessa de um jantar japonês de graça e às custas da mãe, acabou indo a um encontro dela com as amigas do trabalho num restaurante que deixava a televisão sintonizada na novela das nove.

Ela e ele se cruzaram. Um entrando e o outro saindo, cada um do banheiro destinado ao seu gênero. A julgar pelo olhar, o interesse foi instantâneo.

Caras mais novos nunca fizeram o tipo dela. Mulheres mais velhas nunca tiveram vez pra ele. Só que vai entender quando a pele arrepia só de passar perto de alguém. Não existia outra explicação. Ela, parada do lado de fora lavando a mão, resolveu esperar. Por que fazia aquilo? Nunca tinha tido atitude parecida. Sério. Trair era algo impensado. Ela defendia a instituição do casamento, mas uma de suas melhores (ou seria piores?) amigas tinha dito que ela merecia ser bem tratada por um cara.

“Seu marido que se dane”, repetia.

Quando ele saiu, deu de cara com ela. Nem susto levou. Parece até que tinha previsto aquele movimento. Ele enfiou a mão na calça pegou o celular… parecia instintivo pedir o telefone. E sentindo o perigo de serem pegos, ele desbloqueou o aparelho e ela, sem falar nada, digitou o número. Era a primeira vez. Juro. Talvez ele já estivesse acostumado às saídas de banheiro em boates da vida. Ela tremia. Passaram-se anos desde a última vez que deu tamanha abertura a um cara. E se alguém a visse encostada na parede com um garotão? E se algum amigo a visse?

Se a minha mãe me pega aqui eu faço o quê?, pensava ele.

Saíram do pequeno hall tentando ser discretos. Ela retocou a maquiagem, ele guardou o telefone e a fez acreditar quando prometeu que ligaria. Nem demorou muito. Mandou uma mensagem assim que chegou na mesa pensando em não perder tempo. Viu o celular piscar a quatro mesas de distância. Ela jantava com uma outra mulher. Travou o celular e não comentou nada com a amiga. Nem sequer o procurou esticando o olhar pelo salão, mas respondeu assim que se dirigiu mais uma vez ao banheiro.

“Quero te levar pra casa hoje. Posso ou mamãe não deixa?”. Ela não sabia quem mandava aquela mensagem, mas devia ser a mulher que muito tempo ficou escondida sob a mãe/psicóloga/dona de casa dentro dela. Sem frear os instintos, partia pro tudo ou nada. Era a primeira vez que fazia aquela loucura. Juro. Sério. Ela sentia falta de ser mulher e aquela era a saída mais próxima para tentar recuperar alguma coisa dentro dela. Ele? Bom, tomara que aquele “eu já sou bem grandinho, sei me virar” em resposta significasse que ele sabia ser usado.

Quem disse que uma mulher também não sabe brincar?

Primeira vez. É sério.

(Gustavo Lacombe)

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3 comentários sobre “A Falta de Ser Mulher

  1. Uau…. mulher de trinta e poucos, se não é, foi ou será uma devassa!!! A vida é assim…. quem disse que mulher não sabe brincar? Pela primeira vez, segunda, décima, enquanto for bom pra pele!!

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