Nunca Homem-Bomba

Não sei se é medo da vida ou da morte, mas algo parece querer me prender no dia de hoje. Fico torcendo para que os erros fiquem no passado e que o amanhã demore a chegar. Deve ser minha síndrome de Peter Pan. Crescer? Para quê? Só pra ter mais responsabilidades do que aquelas que eu já não consigo cumprir? Escolher uma profissão, ganhar dinheiro, ser o orgulho de alguém… Tempo, façamos um acordo: congela aí um pouco. Meus sonhos estão mais longe do que um simples fechar dos olhos e encontrá-los. E toda a coragem que eu tinha pra fazer alguma coisa parece canalizar pro medo de ser um fracassado. Medo que me prende, ata-me os pés e não deixa seguir para lugar nenhum. Não vou mentir e, talvez, eu nunca tenha contado nada disso para ninguém: sabe por que eu não me torno um suicida? Porque eu sou tão covarde que não tiraria minha própria vida. Eu não tenho vocação para homem-bomba. Eu prefiro ser o cara que sabe onde vai rolar uma explosão e vai lá para ser um coitado, mais uma vítima. Bancar a vítima é comigo mesmo. Logo eu, que tanto falo de sonho, decretei a morte dos meus e só enxergo breu no dia de amanhã. Enquanto mais do que o necessário de gente se preocupa comigo, eu não sei como retribuir. Poucos amigos, pouca diferença no mundo. Se fosse varrido nem perceberiam que o chão ficou mais limpo. É assim que eu me sinto. Vocação pra ser fumaça, nunca bomba. Nunca homem-bomba.

( Gustavo Lacombe )

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