Billie Jean

Ela me pede uma coberta. Diz que está frio, que não entende que gelo todo é esse que sente aqui em casa. Eu corro no quarto, pego um edredon e a entrego.

– Como é que você tem a coragem de me deixar com frio tendo um edredon desses na sua casa? – ela me pergunta em tom de provocação e brincadeira.

Eu rio, ela se enrola, e assim mais uma parte do seu plano se cumpre. Ah, se eu soubesse de tudo que maquina aquela cabeça. No instante seguinte em que sair pela porta ela sabe que sentirei a sua falta.

E ela vai tornar ainda mais difícil isso.

A gente zapeia a televisão e para num canal de música. Me considerei até com um pouquinho de sorte ao pegar o clipe de Billie Jean começando. Michael Jackson era o Rei do Pop e não haverá ser humano no mundo que consiga se igualar a ele um dia. Vocês já viram esse clipe, né? Um detetive vai procurando Michael, ele vai andando e iluminando tudo por onde passa. Poste, chão, cama, degrau.

Não reparem a confusão mental estabelecida na minha cabeça, mas é exatamente assim – iluminando tudo na minha vida – que eu me sinto em relação a ela. Quietinha agora debaixo da coberta, cabeça encostada no meu peito, ela sorri quando eu conto a associação que eu fiz. Diz que o sentido do clipe é bem diferente disso.

O vídeo acaba, a gente continua deitado e, aproveitando a coberta, deslizo logo minha mão nas suas pernas. Como se não sentisse, ela deixa. De repente, num pulo, olha pro relógio e se assusta com o horário. Nããããããooo, eu penso comigo tal qual Lord Vader em Guerra nas Estrelas.

Fica, eu peço. Mas ela já calçou o sapato, apanhou a bolsa e, como mágica, dobrou o edredon que cobria nós dois. Eu sei que ela precisa acordar cedo amanhã. Quem não trabalha numa quarta-feira normal, né? Escuto o elevador abrindo, ela se despede com um beijo e diz que liga assim que chegar em casa pra eu não ficar preocupado.

Olho pro meu apartamento e vejo a zona. Não sei o que está mais bagunçado, se é o meu coração (visto que ela foi embora como um furacão espalhando um monte de sentimentos em mim) ou a mesa do jantar (resolvi preparar um jantar para nós dois e não saiu lá essas coisas).

Fico com a música do Michael na cabeça e, ignorando o horário, cato o clipe de novo no YouTube  e deixo tocar no notebook. Entre deixar tudo do jeito que está para dormir e acordar no dia seguinte para arrumar, decido por limpar tudo logo e ter mais vinte de minutos de cama depois.

É quando Billie Jean começa de novo, é quando o Rei começa a dizer que ela é tipo uma “beauty queen / from a movie scene”, é quando eu me pego na cena da minha própria vida, é quando eu me dou conta de que eu já não consigo viver sem Ela.

Fui pro quarto. E eu adoro isso de chegar nos meus lugares e encontrar o seu perfume. Depois de dobrada a coberta (ainda cozinhando com nosso calor), levei pro quarto para esticar na minha cama. Ela tinha razão quando reclamou do frio mais cedo. Agora, catando os pratos e talheres e copos e outras coisas na mesa, sentia que o ambiente inteiro tinha ficado com a melhor impressão dela: o cheiro.

Não adiantava competir ou tentar procurar outro foco. A comida fria nunca seria párea e, devido as dimensões da minha casa, tudo parecia transpirá-la.

O sofá onde ela se deitou, a coberta com a qual se cobriu – e consequentemente a minha cama onde o coloquei depois de sua despedida, a cadeira em que jantou, o meu peito onde se deixou e, principalmente, o ar que sentiu inveja de ser inodoro e roubou seu perfume.

Tudo cheirava Ela.

Volto meus olhos pra tela do computador e vejo tudo se iluminando, Billie Jean (de novo) rolando e a associação de que Ela é minha luz vai ficando cada vez mais forte na minha cabeça. Ela parece voltar pra me dizer que o sentido daquilo não é o que eu estou pensando.

Eu rio.

Ela sempre teve essa coisa de ser um pouco do contra. Não concordaria nunca comigo naquilo, mas fez o favor de ajudar minha tese se espalhando pela casa. Onde eu chegava ela estava. Mesmo com a luz apagada, era como se todas as lâmpadas se acendessem numa árvore de natal.

Tudo meio-arrumado, deitei no quarto, me enrolei na coberta, me ajeitei no perfume e dormi como se dormisse abraçado por Ela.

[ Gustavo Lacombe ]

Anúncios