Eu detesto terminar um livro bom

Eu detesto terminar um livro bom

Eu detesto terminar um livro bom.

É como se, junto com a última página virada, eu deixasse uma parte de mim. O hábito da leitura sempre foi muito presente, mas agora, aos 23 anos, leio todo dia. Sempre. Ando com um livro na mochila, durmo com um livro do meu lado, como, corro, vivo pensando em como aquela história do momento vai se desenrolar. Não sei se por conta de estar à espera da ideia perfeita para começar a escrever o meu, mas é muito bom ir colecionando os recortes e tiradas fantásticas que outros autores vão colocando em seus livros.

Sério.

Como alguém consegue imaginar aquilo tudo? Como alguém consegue pensar nos mínimos detalhes, cara!? É impressionante a mente de um autor que, de um capítulo para o outro, brinca com as nossas certezas, nossas convicções e explora nossos sentidos nos fazendo enxergar cada passagem. Quiçá nos fazendo ouvir e sentir cada fala, sentimento, gesto e drama vivido por um personagem. E eu me apego tão fácil a alguns deles… É como se projetasse um pouco dos meus problemas e angústias nas deles. E a psicologia fatalmente explicaria isso de um jeito razoavelmente inteligente, mas que nunca li ou fui informado.

O que sei, de verdade, nesse exato momento, é que eu me senti feliz e extremamente chateado por terminar mais um. Pra mim, alguns livros de 300 páginas deveriam ser recheadas de linguiça só para ficarem com setecentas, mil. É como zerar um jogo de videogame. Outra analogia? É como ser campeão de alguma coisa. É como chegar a algum destino depois de uma viagem inteira de carro. É a expectativa, o planejamento. E tudo isso é bem melhor do que a execução em si, o trabalho feito.

O que me resta? Abrir mais uma capa e começar a correr novamente os meus olhos por outras linhas. Vambora. Não descarto a possibilidade de reler algum deles. “A Culpa é das Estrelas” está aí para provar que meus dedos coçam para passar pela história que já li uma vez, mas tenho medo de chegar ao final e sentir uma pontada maior ainda ao terminá-lo uma segunda. Mais um livro lido, mais um pouco vivido – eu penso assim. Isso é inegável e a frase fica indo e vindo na minha cabeça.

Talvez a minha cisma em relação a última página seja o medo de, sendo a minha vida também comparável a um “livro”, chegar logo ao meu final. Hoje, sinto como se só tivesse história para preencher uma introdução. Tenho medo de morrer sem ter feito diferença no mundo.

O que fazer pra resolver isso? Ora, ainda não inventaram nada que substituísse viver para se poder reunir as próprias histórias. Imagino que tenhamos de nos cercar de coisas significativas o suficiente para dar sentido às nossas caminhadas e poder tocar a vida dos outros.

E escolher um bom livro já é um ótimo começo.

(Gustavo Lacombe)

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Um comentário sobre “Eu detesto terminar um livro bom

  1. Gustavo,

    eu sinto a mesma vontade de reler “A Culpa é das Estrelas”. Um livro fantástico e, de fato, inesquecível. Indico, caso ainda não tenha lido, “Como eu era antes de você”. Li numa pegada só, é incomparável. E.. antes que eu me esqueça, você já fez a diferença no meu mundo 😉

    Grande beijo.

    PS: Sua seleção é realmente incrível, amei e já indiquei!!

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