Água com Açúcar

Queria que ele me sacudisse algumas vezes, sabe? Que me pegasse pelos cabelos, enfiasse a língua no meu ouvido e me chamasse de alguma coisa que eu nunca fui chamada. Acho que o meu jeito certo demais o intimida. Ou, então, ele acha que sou puritana e quero ficar na mesma posição embaixo dele, ou em cima, quando olha nos meus olhos e diz “faz o que quiser de mim”.

Vou dar um tiro nele um dia desses.

Água com açúcar, é carinho demais. Enquanto onze entre dez amigas minhas estão reclamando que os namorados esquecem datas, não fazem cafuné e só querem saber de sexo mesmo depois que chegam suados do futebol, eu vivo reclamando que ele é certinho ao extremo. Não rola uma briga por ciúme, porque ele esqueceu a toalha na cama, porque ele não concorda que o filme que a gente acabou de ver tinha um quê de preconceituoso.

Não. É perfeito.

Na praia, uma vez, eu fiquei com vontade de ir pro mar e fazer alguma coisa que envolvesse mãos, partes íntimas e algum risco de nos pegarem. Só de ouvir minha proposta ele ficou vermelho. Acabamos ficando ali, sentados e vendo o pôr-do-sol, como todas as outras vezes. E não esqueçam das palmas, por favor. Espetáculo lindo à beira-mar e eu querendo mesmo era outro tipo de ação. Ele não me lia nas entrelinhas.

Nunca vou reclamar dos mimos. Que mulher não gosta disso? Só que todo dia a mesma coisa acabava perdendo o efeito. Eu quero presentes, mas eu quero em momentos especiais, ainda que o especial seja uma terça-feira que ele saiu mais cedo e me pegou no trabalho pra gente jantar fora. Assim, sem mais nem menos, sabe? Só que se isso for rotina, cansa. Olhar pra cara de um diamante todo dia faz ele parecer uma pedra normal.

O que eu quero? Não vou entregar meus desejos assim de mão beijada. Eu sei que os homens ainda não leem mentes, mas é preciso um cara que se antecipe às minhas vontades, ou que, com o tempo de convivência, aprenda a mudar o jeito com o qual enxergamos as coisas juntos. Não adianta eu mandar em tudo. Eu quero uma opinião que bata de frente, e me mostre que eu estava errada o tempo todo.

Ele tem que ser meu amigo também, mas eu preciso de um homem, não de um capacho ou moleque morrendo de medo de crescer.

(Gustavo Lacombe)

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