esquizofrenia17

 

Andava com a cabeça atormentada, carregando a dúvida de saber se tudo estava dando certo ou não. Já tínhamos tido alguns encontros, mas a ser seguro nunca tinha sido uma característica marcante em mim. Minhas unhas sofriam.

“Tira esse dedo da boca!”
“Deixa eu roer unha!”
“Não”

A questão aqui era a espera por uma resposta. A pergunta era boba, mas o que ela carregava junto é que pesava: quer jantar comigo e com meus pais?.

“Ela vai achar que você quer namorar”
“Eu até que quero…”
“Vocês só ficam há um mês e meio”
“E tem tempo certo pra poder pedir em namoro?”
“E vai pedir na frente dos seus pais?”
“Claro que não” “Não sei se foi um bom convite”
“Cara, é um jantar simples. Aliás, nem é jantar! A gente tá indo num boteco assistir o jogo do Flamengo”
“Ela não é flamenguista, cara…”
“Você só complica as coisas. Agora eu já chamei”

Mais cinco minutos e nada do celular vibrar com a afirmativa ou negativa dela.

“Ela não vai querer ir”
“Para de sofrer por antecipação”
“Ela vai achar estranho. São os pais, cara. Nenhuma menina sai assim para conhecer os pais do cara” “Ela não é qualquer menina” “Mas eles continuam sendo os pais”
“Meus pais não mordem”
“Mas perguntam”
“Hã?”
“Ela pode ficar intimidada”

Quando achei que não havia mais unha para ser comida no polegar direito, a tela acendeu:

– Meu Bem, agradeço o convite! Fico feliz de saber que sou bem-vinda nos programas de família, mas hoje é difícil pra mim. Meio de semana é sempre complicado. Se você quiser, a gente pode marcar algo pro fim de semana e eu levo os meus pais também.

E aí, o que acha?

“E aí, o que acha?”
“Acho que ela sabe blefar, mas se não for isso…”
“Como assim?”
“E eu preocupado com você querendo namorar…”
“COMO ASSIM!?”
“Ela quer é casar!”

Não demorou o celular apitou de novo:

– HAHAHA! É brincadeira, meu Bem. Não surte. Hoje está ruim para mim. Mesmo. Mande um beijo pros seus pais. Adoro o filho deles.

“UFA!”

(Gustavo Lacombe)

Anúncios