“Por onde você andava?”

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A primeira pergunta foi “por onde você andava?” seguida daquela cara de surpresa com um sorriso de mais de metro. Se era falso eu não sei, mas já tinha tomado um susto tão grande com o encontro que preferi não julgar. Olhei prum lado, olhei pro outro e não vi saída. Teria que ficar ali em pé, o tempo que fosse necessário, ouvindo aquele monte de perguntas retóricas e idiotas que  me faria só pra atestar uma coisa: a total falta de desinteresse de ambos os lados. Se em todo aquele tempo a gente não havia se procurado, não seria um esbarrão acidental que mudaria alguma coisa. Pelo menos, do meu ponto de vista, não mudaria porra nenhuma.

Já a segunda questão, depois de eu explicar que tava na vida corrida de sempre, foi “pensei em você esses dias, sabia?”. Não, não sabia. Tô sabendo agora e teria ficado muito grato se você não tivesse me contado. O risinho no canto da boca denunciava a mentira. Eu sabia que fazia aquilo só pra me testar, mas eu fiz aquela cara de quem concorda, acha legal. Tipo quem come sorvete Molico light e diz que tá uma delícia, mas, no fundo, sabe que é uma merda o light e queria mesmo era cair de boca num Kibon de creme e chocolate sem se preocupar com nada. Então, eu queria era ir embora, mas minha mãe não tinha me educado dessa forma.

Pelo menos a terceira pergunta eu ouviria.

Foi aí que veio. Do nada, sem mais nem menos, sem eu conseguir prever, sem pedir licença ou muito menos desculpa pela besteira a ser dita:

– A gente bem que podia sair junto um dia desses de novo, né?

Não! Não pode!, eu gritava dentro de mim. Em menos de um segundo (depois dos outros cinco que demorei para raciocinar o “né” no final da frase) fiquei conversando comigo mesmo: será que já esqueceu de tudo que me fez? Das vezes que os minutinhos de atraso se tornaram horas? Das decepções gratuitas nos dias mais impróprios? Dos comentários sem noção que fazia para rir SOZINHO da minha cara? Das conversas que descambavam pra discussão só porque eu não concordava com algum ponto?

Era preciso piorar a situação. Pegou a minha mão, cheirou, beijou e apertou. Olhou dentro dos meus olhos e repetiu: né?

Houve tempo suficiente para eu fingir um espirro, recolher minha mão e sair com o nariz tampado dizendo que precisava de um banheiro. Nem o lenço que sacou em dois tempos do bolso foi capaz de me deter. Já atravessava a rua e o som dos carros abafou o “eu te ligo” vindo da outra calçada. Sorri por baixo do teatro. De todas aquelas abobrinhas que a gente fala sobre ainda ter o mesmo endereço, o mesmo telefone e a mesma rotina, o outro é que não quis procurar, eu senti um alívio por estar certo de uma coisa. Aquele número não existia mais.

Estava a salvo. Até o próximo esbarrão ao acaso.

(Gustavo Lacombe)

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