O Buquê que Enfeitava o Lixo

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Quando eu vi o buquê no lixo, tentei entender o que leva alguém a jogar – seja uma desculpa, uma promessa, uma esperança – fora desse jeito. No topo dos restos de comida, material que poderia ser reciclado e outras coisas que tiveram sua serventia e agora estavam em sacolas pretas e prontas para serem recolhidas pela companhia de lixo da cidade, lá estavam as flores. Lindas ainda. Se alguém quisesse passar ali e pegá-las (talvez ignorando o cheiro que já tivessem adquirido), ninguém diria que ornavam um monte de sacolas fedorentas.

O prédio em frente à cena não dava mais pistas. Tudo muito quieto, tudo muito calmo. Pude imaginar uma briga antes daquilo. Um rapaz chegando com as flores, batendo à porta com os olhos brilhando e uma certeza, mas sendo recebido com uma expressão gelada e suficiente para murchar o coração e varrer qualquer expectativa criada. Ele argumentou, acredito. Ela? Talvez tenha dito que estava cansada e que, agora, o grande amor da vida dela era ela mesma. Discutiram. Colocando as rosas nas mãos dela, ele se virou e foi embora, sem esquecer de deixar o cartão. Ela nem ao menos esperou ele dobrar a esquina.

Era terça. Dia do caminhão da limpeza. Aquelas flores, em no máximo uma hora, estariam na caçamba dele.

Ou, então, numa outra versão dos fatos, o cara chega ao prédio, toca a campainha e não obtém resposta. Pensa em deixar o presente encostado na parede, mas logo vê uma luz se acender no apartamento desejado. Grita. Não adianta. O vulto não se mexe. Nessa hora, ele diz que vai deixar lá embaixo e todo o edifício ouve que está disposto a fazer diferente. Há quem torça, tente ajudar. Quando se dão conta, estão mais dez pessoas ao seu lado pedindo a ela que desça. Nada acontece. Vendo que seus esforços não resultaram em nada, se vão.

Menos o buquê, que aparado pela grade, fica à espera da presenteada. Quando desce, lê o cartão. Joga fora as flores, mas guarda o que foi escrito. Vai entender.

Se conseguisse pensar em qualquer outra coisa, no fim as rosas ainda estariam no lixo. Qualquer meio, qualquer desenlace não mudaria o fato de que jazia por cima dos restos uma linda e efêmera vontade de mudar. Dando certo ou não, a questão é que toda flor murcha e a maioria das promessas são apenas cheques sem fundos passados por corações desesperados. E, quando batem nas cobranças feitas pelos que bancaram sua condição de terem crédito, acabam decepcionando e voltando para provar que não valiam nada mesmo.

Queria eu imaginar que o cara errou nas flores e esqueceu que ela era alérgica, mas aceitou seu pedido e o convidou para subir. E que deixou o buquê no lixo porque não teria o que fazer com ele. Talvez eu seja um bobo que tenta achar um final feliz pra tudo, mesmo sabendo que, feliz mesmo, é não ter final.

(Gustavo Lacombe)

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