Será que eu sou Invisível?

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Será que eu sou invisível?, foi assim que a Luciana me recebeu na porta de sua casa uma vez.

Não, não se tratava de uma piadinha, brincadeira ou afim. Era um grito, um urro de uma alma que já tinha feito de tudo para chamar atenção do cara que gostava, mas sem nunca ter obtido sucesso. Era a pergunta retórica que exigia a maior das explanações da minha parte, já que contava com o know-how de entender (ou pelo menos supor) como funcionava a cabeça de um homem. Ainda que todas as minhas respostas fossem baseadas no meu modo de agir e como eu enxergava a situação dos dois, já servia para acalmar um coração que chorava por não ser correspondido.

Mulheres e seus amores sem solução.

Claro que eu já vi outros caras caindo naquela situação, mas a quantidade de amigas minhas que se apaixonavam por um cara e não conseguiam se fazer notar era de dar medo. E, pra piorar, algumas caíam de amores pelo mesmo cara. Aí, quando vinham pedir a minha opinião, eu tinha que fazer todo aquele jogo diplomático de dizer que não tinha mais ninguém interessada. Não era mentir. Era apenas preservar a integridade física e moral da outra. Até porque, não se estraga amizade por causa de um romance. Amigos são pra sempre. Vontades dão e passam.

O que tornava a Luciana diferente? Bom, talvez os mais de 1,80 de corpo e morenice. Talvez o rosto talhado por um artista em madeira e envernizado pelo sol carioca. Talvez o fato dela ser tão interessante e gente boa que, tempos atrás, eu mesmo já tivesse me interessado por ela. O que rolou entre a gente passou. Depois veio outra morena e ocupou o lugar que a Lú nunca quis. Entre idas e vindas, encontros e desencontros, nos tornamos amigos. E o foda não era ter que aguentar as crises dela. Se eu não estivesse lá pra isso, não poderia me chamar de amigo.

O problema é que ela gritava. Muito.

Nunca tinha se achado feia. Pelo contrário, Luciana sempre olhou com o nariz empinado para os caras que, sabia, se interessavam apenas pelo par de coxas que tinha. E ainda tem. E que a minha namorada não leia isso. Entretanto, com esse cara, a coisa toda foi diferente. Segundo ela (eu nunca vi o sujeito na vida), ele chegou um dia no trabalho com o rosto vermelho, como se tivesse acabado de chorar. Ela, sem maldade nenhuma, foi ajudá-lo e descobriu que seu sobrinho estava mal, internado e ele estava preocupado. A partir desse dia, começaram a se falar constantemente.

De repente, ela me conta, passou a sentir uma falta de falar com ele, de estar com ele, de olhar os olhos dele. De segurar as mãos dele e perguntar: tá tudo bem contigo? O mais engraçado (e nessa hora ela começava a rir como uma bipolar que ia do falar mais calmo a um histérico e depois descia uma montanha-russa e quase chorava) é que ele era mais baixo que ela. E todo aquele ambiente que exigia ternos, sapatos e saltos a deixava uns QUINZE centímetros mais alta que ele.

–  Minha vontade é colocá-lo no colo e trazer pra casa. – ela dizia. Eu ria.

Demorou menos de alguns segundos pra eu perceber que ela queria mesmo brincar de boneco e casinha com o cara. Queria trazer ele pra casa e se aproveitar do seu tamanho pra niná-lo. Fofa. O negócio é que, com as investidas dela, ele passou a se distanciar. E não que ele tivesse compromisso. Algumas coisas estão na cara, como são. Ele era um rapaz com uma carreira promissora, solteiro, acabara de se mudar para morar sozinho e estava focado no profissional. Às vezes, colocava uma gravata vermelha e preta para homenagear o Flamengo. O Fluminense de Luciana não ia tão bem das pernas assim e os dois viviam se provocando e brincando e rindo. Então, por que cargas d’água ele não cedia?

– Será que ele não viu meus olhares? Será que ele não percebe as minhas pernas, será que ele é tímido? Será que ele é gay?

Essa não era uma opção válida. Quer dizer, eu mal conheço o cara, não posso colocar a mão no fogo. Outra vez, segundo a Lú, eles já tinham conversado sobre outras mulheres, outras amigas. E o cara não dava pinta. Ficou óbvio, então, que ela tinha entrado na Friend Zone dele. MEU DEUS DO CÉU, eu disse em voz alta rindo. Como será possível que uma mulher como ela entrou na zona de amizade do cara e ele não percebe que ela o quer? Sejamos realistas, das duas uma: ou o cara segue um código ético de não sair com ninguém do trabalho (o que, cá entre nós, é BEM raro) ou ele não se interessou mesmo.

Pensando bem, há uma terceira alternativa. Mesmo diante das investidas dela, pode ser que ele não se sinta capaz de segurar o rojão. Amigo, olhando de perto, não é qualquer um que encara essa mulher, não. Um tapa dela desmonta muita marra de cara por aí. E foi o que eu disse pra ela. No fundo, a gente tenta encontrar alguém que ache que pode fazer feliz. Se o cara olha pra ela e pensa “ela é muita areia pro meu caminhãozinho”, não há decote ou bilhetinho de post-it no escaninho que deem jeito. E longe do cara se achar um merda ou algo do tipo. Ele, simplesmente, acha que ela não é o tipo de mulher certa pra ele.

Vai entender, ela repetia sem se conformar com a minha análise.

Saí do apartamento certo de que ela desistiria, mas isso não aconteceu. Luciana trocou os salto altos por sapatos baixos e sapatilhas. Trocou, também, os óculos e jurava que iria entrar na cabeça e nos fetiches dele com uma cara de atriz de filme pornô. Menos, Maluca!, eu dizia ao telefone. Por fim, decidiu continuar investindo. Pretendentes não faltavam para ocupar as horas vagas dela, mas a paixonite tinha se tornado algo maior quando ela viu que ele não queria. Era quase uma obsessão.

– Eu pego esse cara.

Boa sorte, era a única coisa que eu conseguia dizer enquanto ria.

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