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Pelo barulho do sapato eu já sabia que era meu pai abrindo chegando em casa pela porta da cozinha. Colocou as chaves em cima da bancada de granito fazendo um barulhão, meio que dizendo aos habitantes da casa e do prédio: cheguei. Eu estava sentado à mesa, tomando um suco e, pra variar, mexendo nas minhas redes sociais. Com tanto facebook, twitter, instagram e blog pra administrar, às vezes fica difícil reagir rapidamente e dizer “oi” pras pessoas. Foi quando ele soltou:

– NÃO SEI COMO VOCÊS CONSEGUEM ANDAR DE ÔNIBUS NESSA CIDADE!

Até a Sarah, nossa empregada, botou a cabeça pra fora do quarto dela e deu uma encarada pra ele. Antes que meu pai pudesse explicar que gastou duas horas dentro de um busão – sem ar-condicionado – num trajeto que ele faria em 10 minutos com o trânsito livre de carro, nós dois rimos. E, depois que ele explicou, nós rimos mais ainda. Porque, mesmo num exemplo tão bobo quanto esse, é que a gente percebe que só tem a real noção das coisas quando sente na pele.

Os meus trajetos de ônibus são curtos. De casa pro trabalho, do trabalho pra faculdade, e depois de volta pra casa. Nada que tome muito do meu tempo e leve muito da minha vida. Mas, aí, eu fico imaginando o carioca (ou o fluminense, ou qualquer outro que dependa do transporte público no Rio) na sua via crúcis diária pra conseguir realizar suas tarefas, chegar nos compromissos e sendo empurrado, amassado, cozinhado e humilhado dentro de um metrô, trem ou ônibus. Ou os três no mesmo dia até. E imagino outras cidades também.

Quer dizer, São Paulo é inimaginável.

Meu pai tirou a camisa, pegou um copo e foi até o filtro se servir de água gelada. Ficava balançando a cabeça como se não conseguisse aceitar o fato de alguém depender do sistema de transporte carioca. Eu ria da perplexidade dele ao constatar como era andar de ônibus. Muita gente só tem esse meio de deslocamento seja para trabalhar ou para lazer. A Sarah ria da cena que ele estava fazendo por ter pego UM e estar reclamando. Ela gasta quase quatro horas pra voltar pra casa toda sexta-feira.

E, com certeza, até o Prefeito deveria estar rindo.
Mas por um motivo diferente.

Ele ria da gente.

(Gustavo Lacombe)

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