Prioridade de Mãe

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– Hoje não vai dar – respondi a mensagem.
– Que pena, queria você aqui – ela logo treplicou.

Olhei pro lado, vi minha avó na cadeira de balanço. Noventa anos e resistindo bravamente a todos que insistem em dizer que “deve descansar”. Morando com a minha mãe e dando um trabalho grande para ser cuidada, quando estou por aqui faço as vezes de babá tentando descobrir suas vontades e decifrar sua fala. É triste a velhice em determinada fase. Minha mãe apareceu, viu minha cara abatida e perguntou:

– Que houve, filho?

Expliquei. Expliquei que tinha pouco tempo até que ela embarcasse numa viagem de um mês pra longe e me deixasse aqui. Ainda que existisse a saudade e o querer continuar, ela já tinha optado por terminar e só ver o que acontecerá quando voltar. Plausível, eu sei, mas sentia que o tempo ia se esgotando. E estar longe dela é como se o tempo passasse duas vezes mais rápido.

O que você sente por ela?, minha mãe perguntou cirurgicamente. Olha, eu demorei pra responder mais porque organizava as coisas na minha cabeça  entre flashbacks de tudo que já tínhamos passado e o que ainda queria viver. Nada tinha a ver com escolher as palavras. Sou muito amigo da minha mãe e não tinha vergonha de falar na frente dela ou da minha avó (que mesmo não entendendo muita coisa parecia pescar aquela conversa).

– Eu gosto muito dela, mãe.
– E por que você não vai pra lá? Quem tá te segurando aqui?

Eu sabia que ela estava blefando.

Seria errado falar que ela sente ciúme. Como toda mãe, a minha também me superprotege. Como já disse, se sai muito bem no papel de amiga. Me incentiva, conversa e tenta sempre me mostrar que nunca é tarde. Dá suas palestras e monólogos também, mas gosto. E, aliás, não era tarde mesmo. Era por volta de oito da noite ainda. “Vai ficar com ela”, me disse. Alguma coisa coçou dentro de mim e arrumei minha mochila.

Foi quando eu me perguntei o que eu estava fazendo ali, tão longe dela e do melhor abraço do mundo. Foi quando, olhando ao meu redor, não enxerguei o que me completasse como ela e senti vontade de sair correndo, dirigir até a casa dela e derrubar a porta. Foi quando eu senti que o amor, ignorando qualquer tranca que eu tivesse colocado no meu coração, quebrou a vidraça e entrou pela janela.

Mas, mesmo em meio aquilo tudo, não fui.

Não fui porque, no segundo seguinte, minha avó tentou levantar sozinha e caiu no chão. Não fui porque, olhando todo o trabalho que a minha mãe tem com ela, seria injusto eu largá-la num dia que me propus a estar ali. Sei que poderia esperar até o dia seguinte pra ter aqueles beijos. Sei que, por mais triste que pudesse parecer ter aqueles momentos se acabando e eu só descobrindo que a amava de verdade agora, outra pessoa também precisava de mim.

Liguei:
– Amanhã ninguém vai me impedir de ficar contigo, mas hoje eu preciso ajudar minha mãe.
– Tudo bem, meu bem. Eu mesma já tinha dito que era melhor você ficar por aí, mas é que eu queria te ver.
– Eu sei. Olha, eu preciso dizer uma coisa…
– Fala.
– Eu te amo.

E o silêncio nunca foi tão ensurdecedor quanto naquele momento.

– Amanhã. Venha mesmo.

(Gustavo Lacombe)

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