Que Livro?

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(Gustavo Lacombe)

Apareceu na porta do quarto como quem não queria nada. Eu lia um livro deitado na cama e só reparei nas pernas de fora porque ela ficou na minha frente e qualquer personagem, por mais interessante que fosse, não prenderia mais minha atenção que aquele par ali parado. Ela olhava pro teto. Disse alguma coisa sobre a luminária não estar alinhada com as linhas da parede e caminhou até o armário. Voltei à leitura.

Ouvi uma porta se abrindo e ela esticando os braços pra pegar alguma coisa na prateleira de cima. Vestindo só uma blusa grande (leia-se: minha) e uma calcinha (pelo menos parecia), eu tive que olhar a cena. Quanto mais ela se esticava, mais perna aparecia. Até que, parecendo uma bailarina, ela ficou na ponta do pé e deixou que uma parte da bunda aparecesse.

O livro? Que livro?

Toda esticada, com os músculos da panturrilha e do posterior da coxa desenhados e emoldurados por aquele Sol que fazia dos meus olhos satélites, finalmente conseguiu pegar e trazer a caixa pra baixo. Quando se virou e deu de cara comigo, chegou a levar um susto – mas eu sei que ela sabia que eu estava olhando. Deu um risinho e quando perguntei o que era aquilo, respondeu com um “nada” bem despretensioso e bobo.

Saiu, e eu via aquele corpo me chamar enquanto se afastava.

– Pode voltar a ler. Deve estar mais interessante.

Era a senha. Sempre que ela fala algo tendendo para o irônico, quer me provocar. Quer que eu largue qualquer coisa que esteja fazendo, a agarre, jogue no chão (na parede, na cama, no sofá, etc) e ame-a. Simples assim. Não é pedir muito entender os detalhes, né? Se já julgo conhecê-la, que pelo menos soubesse ler (ao menos de quando em vez) nas entrelinhas.

Tal qual um velocista que se prepara para percorrer a distância proposta no menor tempo possível, voei em direção a ela. Já cheguei abraçando pelas costas, colocando a mão embaixo da blusa e dando um cheiro naquele cangote vinte e quatro horas perfumado. Ela deixou a caixa em cima da mesa próxima e não se virou, mas aceitou o carinho que eu fazia.

Eu preciso achar uma conta antiga aqui, disse, referindo-se a caixa. É pra hoje?, perguntei. Bom, ela continuou, a Receita Federal me deu até meia-noite pra mandar minha declaração do imposto de renda, né. Ainda colado nas costas dela, tirei o cabelo da frente e continuei o diálogo: faltam quinze horas ainda pra expirar o prazo.

– Então você vai preferir que eu tenha hora pra acabar contigo do que me aproveitar sem hora pra terminar?

Puta que pariu, por que ela tem que fazer pergunta de terapeuta agora?

– Bobo – disse se virando lentamente pra mim e abrindo um pouco de espaço entre nós – hoje você tem, exatamente, quatorze horas pra parar de me amar.

E jogou a blusa longe.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

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