Até que um Dia

483742_340906866010386_183162060_n

Todas as histórias tem aquela expressão “até que um dia” pra usar, sabe?

A gente se conhecia, conversava. Era amigo mesmo. Até que um dia ele pegou minha mão e eu senti. Primeiro senti o calor do corpo dele passando pro meu no simples toque dos dedos e depois das palmas se abrindo e entrelaçando mais do que o momento, mas o querer. Subiu um arrepio que me levou direto pra segunda sensação que o gesto trouxe: não era só amizade.

Constatar isso é um passo mínimo perto de todo o esforço que se faz depois para qualquer direção. Seja para aceitar que algo mudou, seja para resistir e lutar contra ou, então, escancarar de vez que agora era amor e pronto. Na teoria é simples. Escolhe-se um caminho, fecha-se os olhos e vai. Na prática, coloca-se o coração na berlinda de qualquer jeito.

É ganhar ou perder sem engano.

Devo ter deixado transparecer. Se ele simplesmente queria a minha companhia, em segundos eu queria a história dele. Poderia ter sido ruim, não fosse o fato de estar apaixonada por um dos caras mais cabeças de vento que conhecia. Eu poderia colocar uma plaquinha no pescoço dizendo o que se passava comigo que ele leria e perguntaria “mas quem é o felizardo que eu não conheço!?”.

De repente, me vi evitando os lugares em que ele ia, deixei de sair se fosse pra dar de cara com alguma menina pulando nos braços dele ou simplesmente chegando perto. Não conseguia evitar meu ciúme, não conseguia parar de pensar nele, na gente. Até que ele reparou. Não que eu o queria, mas que estava estranha.

– Você tá estranha. – homens adoram essa frase tanto quanto as mulheres curtem “precisamos conversar”.

E por mais clichê que possa parecer, a coisa toda de eu tentar evitar e me abster foi por água abaixo quando ele começou a ficar com uma menina do condomínio dele. Ela me assombrava aparecendo em todos os eventos com ele. Eventos esses que eu não poderia deixar de ir.

Resolvi guardar meu amor num cantinho bem fundo de mim. Não queria me expor e acabar perdendo a amizade. Me declararia e não teria chance alguma contra uma menina que morava a algumas casas da dele, um cabelo loiro impecável, que tinha menos cintura que eu, e mais peito, mais bunda. E parecia, realmente, gostar dele.

Eu não atrapalharia isso. Desculpa, mas eu sou assim. Penso primeiro que ele está feliz e nada pode ir contra isso do que pensar que posso fazê-lo ainda mais feliz. Eles se mereciam. Eu? Esperava. Esperava que, num passe de mágica, aquilo tudo mudasse em mim (assim como começou). Esperava outra pessoa, sei lá. Me ocupei, fiz outras mil coisas. Mas, no final, acabava com a cabeça no travesseiro pensando em como estava sendo burra.

Porque me afastando eu ficava sem nada. Nem tinha o amor nem a amizade.

Era quase meia noite quando me dei conta disso. Tinha voltado há um tempo de um bar com outros amigos. Tinha, também, me levantado assim que o vi entrar no lugar com a menina. Fingi que ia ao banheiro, dei dois beijinhos nele e parti. Deixei minha parte da conta e, com o coração acelerado, entrei no carro e só parei em casa.

Como se uma loucura tivesse tomado conta de mim, resolvi finalmente explicar para ele porque estava estranha. Iria dizer que não tinha gostado da menina, mas omitiria qualquer coisa que dissesse respeito ao que sentia. Tentaria, então, dizer que estava com ele pra tudo. Que a nossa amizade não poderia se perder.

Chovia, pra variar. Quando alguma coisa tem que ir contra, todas as outras irão junto como um efeito dominó. Só o pneu do carro que não furou, mas pense em trânsito, cruzamentos com experiências de quase morte e desvios de rota por conta de bolsões d’água que se formavam em dez minutos de chuva forte. Essa merda desse prefeito que não resolve os problemas da cidade!

Ah, e o porteiro do condomínio não queria me deixar entrar. Disse que, provavelmente, estavam todos dormindo. Olha isso, cara!

Liguei pra ele e dei um susto logo. Mandei vir até o portão ou ligar pra portaria. Fui autorizada a entrar e, quando cheguei na porta da casa dele, lá estava o menino que vestia um calção de corrida e uma camiseta sem graça da melhor maneira possível. O carro parou com um tranco e eu saí, ficando ensopada em três segundos.

– O que você tá fazendo aqui? – ele já chegou logo perguntando.
– Fala direito comigo. Parece que eu tô atrapalhando alguma coisa. Parece que você não gosta de mim.
– Eu não sei o que tá acontecendo contigo! Eu não te reconheço mais, cara. Cadê aquela menina que tava comigo pra tudo, que me contava as coisas, que ria comigo? Cadê aquela parceira pra quem eu podia contar meus medos?
– Tá aqui! Isso que eu vim te mostrar! Será que você não percebeu o que aconteceu? – acho que meus planos iam por água abaixo, junto com o resto da maquiagem que eu usava.
– Percebi que você mudou pra muito pior. Nunca achei que você fosse capaz de abandonar seus amigos!
– Você fala como se tivesse cheio de problema! Você não tem nada pra reclamar da vida! – eu vivia dizendo isso pra ele – E agora você tem essa menina aí pra te ajudar.

– Amor! – alguém gritou lá de dentro.

Eu disse. Quando algo pode dar errado, tudo conspira no mesmo sentido. Não demorou mais que alguns outros instantes pro portão da casa se abrir mais um pouquinho e a loira peituda apareceu na porta. Os poucos pingos de chuva que pegou bastaram pra transformá-la numa espécie de concurso Garota Molhada e eu fiquei morrendo de vergonha do meu corpo colado contra a roupa que não revelava nada.

Quando me viu, a cara dela fechou.

Enquanto o idiota ia atrás dela e me pedia pra não sair dali, pude ouvir o barulho de chaves (mentira, acho que ouvi. A chuva estava forte, mas ela passou por mim com um molho na mão e batendo o pé). Não deixou nem um recado, mas pelo “agora fodeu” que ele soltou quando ficou sozinho ali tomando chuva comigo eu percebi que era grave.

– Quem se explica primeiro? – eu perguntei.
– Ela viu uma foto sua.
– Que foto, Bocó?
– Não me chama disso que eu não gosto desse apelido idiota.
– Tá, explica logo!
– Eu tenho uma foto nossa numa das minhas gavetas de cueca.

Sério, eu estava mais do que perdida na hora. Ou só não queria entender o que aquilo significava.

– E…?
– E aí que não deve ser muito legal achar a foto de outra menina na gaveta do seu namorado quando se está procurando uma camisinha pra transar com ele. Acho que acaba todo o tesão.
– Por isso ela saiu daqui assim?
– Eu disse a ela que – e não terminou a frase, só engoliu à seco.
– Porra, agora você vai falar! Porque eu saí de casa que nem uma maluca, quase morri três vezes dirigindo…
– Você dirige mal – ele me interrompeu
– Babaca, não me interrompe! E cheguei aqui pra dizer o quanto eu tenho sofrido porque a gente está afastado. Eu sempre fui e vou ser sua amiga, mas não dá mais pra manter algumas coisas dentro de mim.
– Como assim?

Acho que a ficha dos dois estava caindo.

– Eu preciso dizer que eu te amo. Tô nem aí se você não sente o mesmo, se você quer sair correndo atrás daquela menina ou se você vai rir. Foda-se. O que eu não posso mais é ficar carregando o peso de te amar e, por isso, não poder estar perto. Porque é isso que acontece. Você chega perto e eu tremo, a mão sua e, quando vou ver, estou mandando mais olhares apaixonados por segundo do que qualquer filme romântico que eu já vi. COMO VOCÊ NÃO VIU ISSO TUDO!? “Você tá estranha”, não foi o que você disse? E eu estava mesmo, porque te evitava pra não te atrapalhar.

E ele começou a rir. Que raiva que deu! Minha vontade era pular na garganta dele e socar aquela cara até que ele entendesse que eu gostava dele, mas eu não tinha forças pra nada. Só de me confessar eu já gastava muita da energia que tinha.

– Isso que você nunca entendeu também. Você não atrapalha nada. Você sempre foi onde eu me desembolava. Você sempre esteve ali e eu nunca consegui ser grato o suficiente. Nunca consegui admitir que, por trás da máscara do amigo, existia um outro interesse.

A ficha caiu. A minha e a dele. Naquela hora, todos os momentos que dividimos passaram na minha cabeça e eu vi como a gente era e o tempo que a gente tinha perdido. Perdemos tempo com outras pessoas, outras noites, outras camas e, agora, tudo se encaixava. Ainda que algumas outras coisas tivessem que ser explicadas, não importava muito com o que iria acontecer depois.

Éramos dois corpos molhados. Éramos dois num só abraço. Éramos eu, ele e um beijo. Éramos uma vontade represada há tanto tempo que só aquele beijo na chuva não daria jeito. Até que um dia, no meio de um beijo nosso, eu tirei a prova de que era ele quem eu queria. A gente se tornava mais que amigos.

Até que um dia, éramos um do outro de vez.

(Gustavo Lacombe)

Anúncios

Um comentário sobre “Até que um Dia

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s