Droga, já ocuparam a janela!
Droga, já ocuparam a janela!

O assento do meio deveria ser abolido dos aviões. Ele só serve mesmo pra te levar até o seu destino. E nada de “aproveite a sua viagem”.

Mas comecemos a dissecação do terror aéreo pela janelinha. Ela é ótima! Para as crianças. Até os cinco anos. Se precisam de alguma coisa, olham pro lado e chamam os pais. E eles que se virem com os pimpolhos. Neste lugar, admira-se a paisagem, vê-se os montes, lagos, nuvens. Ah, as nuvens. Formações de algodão que dão asas a imaginação de qualquer um (e aqui não importa a idade) que encosta a testa no vidro. Quando não se está perguntando o que acontece com o ar no espaço entre os vidrinhos da janela, sem dúvida está se admirando a vista.

Só não pode dar vontade de ir ao banheiro. Se a fila estiver vazia, ok. Se cheia, vai ter que acordar o gordinho do lado pra poder passar.

Já o corredor é bom pra quem tem incontinência urinária ou que sente o sanduíche oferecido de lanche não cair muito bem – ainda que ele seja pequeno demais pra causar algum estrago. É uma via rápida de acesso aos toaletes e, claro, aos compartimentos de bagagem acima da cabeça. Se a janela é regularmente ocupada pelos pequenos que nada mais tem a fazer a não ser olhar a vida passando devagar do lado de fora, a outra extremidade é reservada aos executivos que precisam sair apressados assim que o comandante anuncia que o pouso foi autorizado (ou até mesmo a decolagem).

É o melhor lugar para se observar as formas das aeromoças entubadas naqueles uniformes justos, além de oferecer o poder de perturbar o juízo dos atendentes de bordo (acendendo a luzinha para pedir mais um caramelo Butter Toffe ou suco de laranja – não tem pêssego light!), o corredor tem suas vantagens e fiéis compradores. Há quem brigue para se sentar ali, como também há sempre uma disputa para ver quem vai pra janela.

Agora, você já viu alguém gostar de sentar no meio?

Reservado especialmente para pessoas que esqueceram de marcar seu assento na internet, pais dos pirralhos da janela, infelizes, azarados e outros viajantes desafortunados, o meio sempre guarda sua surpresa. Ou revela seu constrangimento. Se você ousar olhar pra fora do avião, o alguém ao lado te encara com uma expressão de pitbull feroz perguntando “o que você quer olhando lá fora? Esse espaço é meu! Recolha-se a sua meiuca insignificante”. Se quiser sair pra ir ao banheiro, tem que fazer malabarismo pra passar pela pessoa ao lado e não deixar metade da perna presa entre o banco da frente e o outro passageiro.

Ainda assim, nem tudo é tão ruim que não possa ficar pior. Seja um desconhecido na fila do meio (comumente lugares B e E nos aviões de voos domésticos – ou B, E, F, I na econômica internacional) para ganhar, inteiramente “de grátis” uma mediação entre a conversa dos estranhos das outras fileiras. Ah, e de bônus, fique com a vergonha de perguntar se elas querem mudar para ficarem juntas ou só atrapalhar a sua viagem mesmo. Sem falar no (bônus 2) extra: o teor dessas conversas, geralmente sobre como os respectivos filhos são lindos, maravilhosos e levaram o panettone no Natal.

Mas cruze os dedos. Pode ser que, na próxima viagem, você seja marcado para se sentar ali no meio sozinho. Aí, levante os seus braços e os da poltrona para os céus, deite e aproveite a viagem.

Vai que é o seu dia de sorte.
Ou não.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

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