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Gosta do apito do trem, de sentir o trilho passando. De estar rodeada por uma bela paisagem com o mês acabando. Se enamora do sol, brinca nas águas cristalinas da piscina da casa. Ela é bem mais de gatos e eu sou seu vira-lata. Às vezes chora à tôa, às vezes fecha a cara de um jeito. Mas passa com o tempo. Logo volta o sorriso que ilumina o mundo inteiro. Não gosta de estender os assuntos a quem não deve sabê-los. Se o problema é nosso, não o divida. Saberemos como resolvê-lo.

Gosta do olho no olho, da pele na pele, da boca na boca e, vou confessar: minha melhor noite foi numa dessas em que largamos no chão nossas preguiçosas roupas. Nunca queriam voltar pros corpos. Já me fez surpresas, já me encantou com a beleza. Já me fez pensar na tristeza que causei por não pensar antes de fazer uma besteira. E eu fiz várias. Ficou na minha vida, não só pela minha insistência, mas por gostar. E você sabe quanto vale a pessoa certa te amar? Nem tente um chute.

Hoje, garanto, entendo os corações teimosos que persistem no amor. Eu a venci pelo cansaço, mas depois tive que trabalhar dobrado pra me corrigir e me manter acordado no sonho de tê-la em meus braços. Melhor de mim desperto por sua causa, se ainda erro é por querer fazer dar certo. Contradição, eu sei. Mas explicação pro nosso caso nunca foi o forte. Enquanto as amigas dela perguntavam que diabos ela fazia comigo, pros meus amigos eu versava sobre “destino, acaso ou algo mais forte”.

Ela gosta de sucos estranhos, diz que açaí é uma maravilha e que ainda vai me fazer gostar de certas coisas que não podem faltar na minha vida. Morangos, por exemplo. Vivo reclamando que ela não come direito, que esquece do mundo e corre o dia inteiro resolvendo problemas – muitas vezes dos outros. Fiel com as amizades, passa por cima de si mesma algumas vezes, apesar de ter um orgulho danado. Acho que, no fundo, ela cresceu pra se preocupar com o próximo. Longe de ser Madre Teresa, ela apenas gosta de ver as cartas na mesa e ir até o final quando se propõe a alguma tarefa.

Tem dificuldade em se abrir, dizer sentimentos. Prefere agir e deixar por conta dos momentos a ratificação de tudo. Gosta de cinema, tanto que sua vida parece seguir por esse caminho. Quem sabe a gente não dá um filme? Ou um livro? Pegaria todos os poemas que fiz pra ela e faria um. Ah, o segundo volume. O primeiro eu já providenciei no aniversário passado. Meio egocêntrico dar um presente todo versado por mim, mas se ela é minha principal fonte de inspiração, deixa assim.

A incerteza do que vai acontecer com nós dois também me inspira. Uma vez ela disse essa frase, com aquele sotaque que minha cabeça revira. Hoje, sempre que vejo um lírio na rua, lembro imediatamente da primeira vez que comprei na floricultura um buquê de deles brancos. Surpresa e tanto. Quando saio do trabalho, relembro a surpresa que um dia ela fez. Monitorava meus passos e me pegou desprevenido, de sorriso largo e sem saber o que dizer. Logo eu, tão adepto das palavras. Café? E a gente trocando os nomes e rindo.

Né, Daniela?

Ela gosta fazer caras e bocas, gosta do inesperado. Por ela, faria uma mala e entraria no aeroporto rumo a qualquer lado. Aventureira por si só. Acho que ela colocou o vírus do imprevisível em mim. Não que eu tenha mudado meu jeito um tanto decifrável, mas aprendi a melhorar para continuar a tendo ao meu lado. Peraí, eu já disse o quão bonita ela fica com um rabo de cavalo? Enfim, melhora constante, eterno aprendizado. Era de uma pessoa assim que eu precisava, e eu tenho me esforçado pra retribuir o presente.

Ela gosta de mimos, mas detesta que a sufoquem. Precisa do seu próprio espaço e tempo. E eu sempre entendi. Afinal, ser compreensível é uma das lições que se aprende em casal. Eu a adoro. Ela me adora. Não gostamos de dizer “também”. Às vezes, mesmo longe, basta um pensamento pra gente saber se está ou não tudo bem. Não é telepatia. É parceria. Ela gosta de quem jogue junto, cada um na sua devida posição. Ela gosta de ser franca e jamais brincaria com o coração. O meu? Ela tem nas mãos.

Ela também gosta do Caetano, do Chico e do John, mas se derrete me vendo tocar violão (sou exibido pra ela, sim). Dona do melhor abraço, posso sentir suas mãos nas minhas costas em momentos de crise em que não está ao meu lado, mas dentro de mim. De tudo isso que eu disse, ela é mais um pouco também. Quem resumiria em tão poucas linhas tão complicado, incrível, interessante e gostoso de amar alguém? Dessas que gostam de pasta, Itália e salada, ela é uma das coisas que eu menos gosto: ficar sem palavras. Fazer o quê se ela rouba todos os pensamentos naqueles olhos castanhos que certas vezes me estranham?

Tudo isso. O dito e o não dito. Quase um vício.

Ela; meu amor.

(Lacombe)

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