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Foram quase dois anos entre o último tchau e o tímido “sim”.

Antes que você não entenda, não foi o primeiro término nem a chegada do meu casamento. Foi mais que isso. Foi o final de um relacionamento que tirou quase tudo que podia de mim e a aceitação que meu coração poderia ser feliz de novo. Foi o intervalo entre deixar para trás tudo que eu conhecia como “vida a dois” e encarar outra jornada com alguém novo.

Nesse meio tempo, não importa com quantos eu fui pra cama. Aliás, não te dar esse número é problema meu. Não seu. Pense o que quiser, mas eu sei para quantos eu tirei o vestido e para quantos eu fiz questão de ter o zíper aberto. Na minha vida, dividi os homens entre aqueles que me teriam só por diversão – e assim eu também os encarava – e aqueles que me tinham como presente. Eu só não sei porque conjugar o verbo dessa forma.

De verdade, eu fui de um cara só.

Nem primeiro namorado ele era. Aliás, meu primeiro cara foi um grandissímo babaca que só se interessou por mim depois que ouviu, numa conversa em que estava mais ruborizada que nunca, que eu era virgem. Fetichezinho escroto esse. Foi um príncipe até conseguir comer o fruto proibido e ir embora. Eu? Branca de Neve adormecida entre arrependimentos e vontade de matar o primeiro homem que ousasse se aproximar de mim por sexo.

Até que eu conheci Ele. E deixa assim mesmo, escondido por um pronome masculino em referência ao cara que me fez descobrir o que é ser mulher, o que é ser amada, o que é ser feliz, o que é sofrer e saber perdoar. Logo ele, que também tinha sofrido uma desilusão por conta de uma vagabunda qualquer (nada de corporativismo aqui), caiu mas minhas mãos.

E fomos muito felizes.

O que aconteceu? Terminou. Não desse jeito simples. Não do modo mais tranquilo que poderia ter sido. Terminar um relacionamento amando loucamente a outra pessoa não é uma coisa simples. Entretanto, a gente já não se fazia bem. Vou me poupar de dar detalhes. Minha escrita hoje não é para lembrar do passado, mas para celebrar o presente. Com passos tímidos, eu estou vivendo de novo.

Tirei uma folga da seriedade nesse tempo. Me voltei para outros projetos, outros focos. Me perdi em lençóis sem sentido e me deixei levar por pessoas de papel que se desmanchavam ao tirar a maquiagem no banheiro no dia seguinte. Fui usando da minha carência pra ser mais forte, mesmo sendo vencida pelo álcool em certas vezes. E acordava com a ressaca na cabeça e a vergonha entre as pernas.

Quer saber? Foda-se. Sou mulher. Bem resolvida com algumas coisas e complexada com outras. Sou normal. Nesse período ele me procurou duas vezes. Na primeira era saudade. Na segunda, era informando que tinha seguido. Doeu. Doeu porque eu torcia pra encontrar alguém antes dele. Somos todos palhaços ao fim. Desejamos a felicidade do outro, mas ela tem de ser menor que a nossa, claro.

Claro?

Foi preciso abstrair muita coisa. Foi preciso me deixar sentir nas mãos de outro alguém até que a confiança voltasse. Pra ficar de bem comigo mesma e não querer desaparecer no minuto sucessivo. Quando o sorriso despontou sem querer e o pensamento, enfim, se deteve numa imagem só, julguei ter me curado. E não é que seja mentira, mas é preciso ir em frente. Nem que seja na marra.

Foram dois anos nisso. Ou um pouco mais. O “sim”, inclusive, não foi pra nenhum pedido para rotular a relação, mas para um simples jantar. Vem me pegar às oito, vai me apresentar uns amigos e acho que essa noite eu terei outro significado. Ele – dessa vez sem fazer referência ao antigo – está me tratando bem. E eu tenho me deixado tratar assim.

Às vezes, nós mesmos não sabemos aceitar o quão bem os outros nos tratam. Não adiantava eu me esconder do mundo. Quando a cabeça acenou com “por que não?”, eu me dei alta daquela solidão. Mesmo que esteja longe da cura, eu não quero mais abraçar a doença de ter medo de deixar alguém me fazer feliz.

Já está mais do que na hora de voltar a sorrir. E com gosto.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

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