Você pode ler esse texto ouvindo "I Say a Little Prayer", Aretha Franklin.
Você pode ler esse texto ouvindo “I Say a Little Prayer”, Aretha Franklin.

Acordo e penso.

Primeiro eu penso se você ainda está dormindo. Depois, penso se você ainda está acordado e se passou a noite inteira em claro por conta de um problema ou por causa de alguém. Penso isso tudo, certamente, antes mesmo de levantar da cama. Até agora eu vi: o branco do teto, a pintura pendurada na parede e o armário com a porta entreaberta e empenada que ainda não foi consertada por falta de tempo.

Levanto, vou ao banheiro e vejo o rosto sonolento no espelho – que julgo não poder ser tão meu assim. Parece somente um esboço, longe do que eu vejo nas fotos que guardei de nós dois juntos estrategicamente num lugar escondido e de fácil acesso. Ainda penso. Nessa hora, nenhum vestígio de ciúme me passa pela cabeça. Como numa oração, peço apenas que esteja bem onde quer que bem esteja.

Trabalho.

Durante um dia inteiro te encontro nos detalhes. No café de máquina que você detestava reclamando do gosto de metal e bebendo do mesmo jeito, na caneta que me deu de presente e riu quando fiz aquela minha cara de “que raio de presente é esse?”, nas notícias de que o mundo está mais quente, mais violento e menos amoroso com direito a uma fala sua invadindo meus ouvidos e assaltando minha atenção com “onde nós vamos parar?”.

Não, eu não me pergunto “onde nós paramos”. Eu sei exatamente onde foi que paramos e porque não continuamos. Olho para as minhas mãos, aperto minha roupa tentando me concentrar no que estou fazendo, mas logo fico me perguntando como será que você está vestido. Os dedos largam o algodão sabendo que ele em nada se parece com os seus cabelos. Eu sempre gostei do jeito que se vestia. E de me embaraçar em você também.

Sorrio. E logo levo um esporro do chefe pela desatenção em algo. De volta à realidade. Ainda penso. Durante o trajeto para casa, ao chegar, ao preparar o meu jantar, ao cumprir minhas tarefas, ao realizar meus hobbies, ao relaxar.

Ainda penso porque, quando se carrega um amor, tudo faz lembrar. Mesmo que eu prove e me cerque de coisas novas, de pessoas diferentes e sensações que nunca senti, ainda penso. Até antes de dormir penso e, como numa oração, peço apenas que esteja bem onde quer que bem esteja.

Ainda penso. E ainda amo.

(Gustavo Lacombe)

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