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Acostumar a gente acostuma.

Quando o cobertor é curto, o corpo cria o hábito de se encolher mais até achar uma posição em que a parte exposta não reclame tanto. É preciso dormir de qualquer jeito. Quando a cicatriz expõe um acidente, há quem faça uma tatuagem por cima, ou passe maquiagem sempre. Dá-se um jeito, principalmente, de conviver com aquilo na tentativa de ignorá-lo – mesmo aquilo tão presente e impossível de não ser notado.

Como a falta que o grande amor faz.

Então, claro que eu consigo sair à rua e encontrar meus amigos, minha família. Claro que eu posso me sentar à mesa, pedir meu chopp, matte ou seja lá o que for e conversar sobre as amenidades. Inclusive, eu posso continuar contornando meus problemas. A vida não para porque alguém pediu um tempo ou foi embora. Segue, às vezes, num ritmo mais frenético até. E, então, é claro que eu posso responder o “como você está?” com “tudo ótimo”. Ignorando o olhar desconfiado e dando a certeza com a minha fala segura, consigo seguir o roteiro e emendar um sorriso.

A gente acostuma.

A falta vai deixando de ser buraco e vai dando lugar a uma saudade que anda lado a lado, dando a mão na maioria dos momentos e preenchendo o vazio. Os lugares que faziam lembrar, agora simplesmente lembram, mas sem a necessidade de colocar a pessoa ali. As situações que remetiam aos acontecimentos passados e as músicas que serviam de teletransporte agora apenas acontecem. É o costume de alguém perguntar “e fulano?” e retrucar com o já ensaiado “ah… passou, né?”.

Pode até não ter passado, mas a gente acostuma.
Acostuma até a mentir dizendo que se acostumou a viver sem ela.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

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