O Primeiro Pesadelo

tumblr_n04c50LwSY1sp8ctro1_500

Esse texto é o primeiro pesadelo do texto “Vestido de Noiva”.
Antes do desfecho, o início.

Não reconheci o ambiente.

Era um desses cafés mal iluminados, com um som de jazz ambiente e a certeza de que eu me encontrava em qualquer outra cidade do mundo que não o Rio. Nunca tinha ido a um lugar como aquele, mas entendia tudo que era dito nos sussurros que vinham dos cantos escuros e das mesas com taças de vinho sendo servidas vagarosamente. Olhei ao meu redor, continuei sem reconhecer quase nada e me peguei sentado numa das mesas mais afastadas do pequeno palco montado. Reparei nas roupas que vestia e me dei conta que usava um terno com preto com riscas de giz e gravata vermelha escura.

Tateei os bolsos à procura de alguma coisa que me fizesse entender onde estava. Achei um aparelho celular. Sem data no visor, sem mensagens piscando nem nada. Apenas a hora aparecia na tela de forma compatível ao ambiente e já em acordo com as minhas retinas. Eram quase oito da noite. Não me pergunte – ainda – o que significava aquilo tudo. Num gesto rápido e sem pensar desbloqueei a tela, mas apenas a mensagem “olá, Gustavo”, aparecia. Nenhuma pista. Resolvi seguir o jogo e esperar mais um pouco. Não encontrei nenhum bilhete na calça ou no paletó. A carteira, com notas, alguns cartões de crédito e outros de visitas, não me dizia nada mais.

Realizei que havia mais um prato na mesa. Abordado de repente pelo maître, que me perguntava se “ela” ainda viria apesar da hora avançada, respondi num rápido “sim” – e nem sei porquê. Era tudo muito estranho. Admito que poderíamos estar, sim, na minha cidade natal e esperando a mulher dos meus sonhos, mas poderíamos contar isso tudo de um restaurante em Bangladesh em que todos falavam um idioma universal e a mulher em questão poderia assumir as mais variadas condições. A cabeça doeria, não fosse um simples fato. Simples, mas importante.

Não importava o que ali acontecesse, aquilo tudo era um sonho.

Deixei os sentidos se alongarem conforme a melodia e, por um instante, não tentei buscar mais nada. Foi quando uma lufada de vento quente entrou pela porta e me virei. Sabe quando você olha duas vezes até conseguir acreditar no que os seus olhos estão mirando? Sabe quando você se pergunta três vezes se aquilo tudo (ignorando o fato de ser sonho) está realmente acontecendo porque você sabe que a imaginação certas vezes nos prega peças? E sabe quando você demora mais de cinco segundos pra reagir a alguma coisa porque seu corpo está imóvel e tudo lhe fugiu – desde os pensamentos até o sangue do seu corpo?

Ela adentrou o restaurante fazendo barulho com os sapatos de salto alto e entortando todos os pescoços possíveis do ambiente. Os homens torceram para que suas mesas fossem agraciadas com a sua presença. As mulheres desejaram que houvesse, no dia seguinte, um meio de conseguir ser aquilo tudo que passava como um furacão pelo salão e vinha se sentar de frente a mim. Levantei-me, puxei a cadeira e ela se acomodou, pousando a carteira pequena na cintura e me desejando “boa noite” com uma voz fria, num tom que parecia começar e encerrar uma conversa ao mesmo tempo. Começou:

– Apesar desse sonho ser seu e eu estar aqui participando dele por algum motivo que nenhum de nós dois irá entender agora, quer dizer, você não irá entender agora, serei breve. – ela falava como se tivesse mais dezenas de compromissos e que estar ali era uma obrigação contratual com cláusula que previa multa por não comparecer a tal encontro.

“Você não vai conseguir me achar amanhã. Não adianta levantar da cama assustado e gritar pro seu espelho que teve um sonho comigo – ou um pesadelo, eu não me importo o que você vai achar disso tudo – porque nenhuma informação vai brotar no seu celular, na sua caixa de entrada do email ou, quiçá um soluço de materialidade, nenhuma carta chegará dando uma pista de onde eu estou. Isso tudo eu falo porque eu desejo que seja assim. E como eu sou fruto do seu subconsciente, vou logo me adiantar e dizer que nada do que você fizer adiantará. Por mais que você ache algum vestígio meu, eu já não sou mais palpável”

Nessa hora, como quem quisesse iniciar uma discussão, tentei segurar sua mão num gesto instintivo. Ela previu meu movimento e a retirou antes que conseguisse encostá-la.

“Vou me levantar e você não vai me seguir. Vou cruzar aquela porta e não pretendo voltar. Pelo menos não mais nesse sonho. Não vou, entretanto, reprimir que nas próximas noites você sonhe comigo de novo. Aliás, isso não depende de ninguém aqui. Não fique triste por não ter conseguido dizer nada. Aliás, não fique triste por acordar sozinho depois de ver como ficou no futuro. O que você encontrou contigo agora além de um celular moderno, uma carteira recheada e estar vestindo um terno elegante?”

“Olhou suas mãos? Perguntou-se quantos anos tem agora? Pegou-se usando uma aliança? Descobriu um bilhetinho escondido entre os bolsos com um pedido para que não se demore hoje após o trabalho? Aliás, o que você faz? Conseguiu decifrar? O que é você além de um bom vinho num restaurante chique e uma cadeira vazia à sua frente? Quem é você? Quem está com você? Não sentiu nada? Ninguém lhe veio à cabeça? Filhos, mulher, família? Talvez isso aqui tudo seja cruel demais, mas você chegou a se perguntar onde é que eu fui parar?”

“Claro que agora estou aqui, mas de onde vim? Pra onde eu vou? Quem me aguarda? Quem construiu alguma coisa comigo? Quem (e seus olhos começaram a se encher de lágrimas) desistiu de mim? Quem lutou por mim? Como eu deveria estar agora? Por que eu só vim te dizer isso tudo e logo estarei indo embora? Por que foi preciso seguir esse caminho? Quantos sonhos ou pesadelos serão precisos até você se dar conta das coisas? Só quando você me vir vestida de noiva?”

E olhou pra mim tão fundo que eu tive certeza de que ela não ficaria mais nenhum segundo ali. Pra onde iria? Não sei. Sei apenas que ela não estava comigo. O ar quente invadiu o ambiente de novo e a moça se foi sem virar pescoços, mas deixando revirada a minha cabeça.

– Só quando você me vir vestida de noiva?

É. Talvez.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

Anúncios

Um comentário sobre “O Primeiro Pesadelo

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s