Mas Já Nem Sentia

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Helena se virou pela última vez para olhar o apartamento. Já sentia o cheiro da saudade entrando pelos pulmões e o dilúvio que ela causaria em instantes. Fez-se firme. Mirou, desejando não ser a derradeira, o sofá de couro que eles tinham ganhado de presente de casamento. Distantes sete anos. Tão distantes que aquele movimento era inevitável. No jogo de xadrez que jogava com o marido, prestes a se tornar ex, não seria ela quem levaria o xeque-mate.

Não houve traição, ainda que existisse a desconfiança. Não houve uma falha absurda, ainda que outras (bem) menores tivessem corroído a relação. Não existiu uma briga, ainda que as picuinhas tenham se estendido ao ponto de um acordar e o outro já emburrar a cara e falar alguma coisa. Não tinha acontecido aquela famosa “gota d’água”, mas ela não ficaria ali para ver nada transbordar.

Bateu a porta e se foi.

Paulo que se virasse para se achar na imensidão daquele apartamento. Desceu o elevador pedindo para não encontrar com nenhum vizinho conhecido. Quem visse a mala certamente perguntaria se ela iria viajar. E Helena, muito educada, diria que sim e logo estaria de volta. Ou, então, só responderia “negócios”, para cortar o papo. Não cruzou com ninguém. Entrou no carro e se foi pela garagem.

Ao chegar no portão, acionou o controle que logo fez com que o barulho do alumínio se mexendo inundasse tudo em volta. Não entendia o porquê de pagar tanta cota extra nas despesas do condomínio e ainda ter um portão que fazia tanto barulho. Tentava espantar os pensamentos do marido sozinho no quarto a chorar por sua causa. A procurar nas gavetas as roupas que ela levava consigo.

A olhar as fotos que tinha deixado pra trás.

E num desses devaneios loucos que ocorrem em frações de segundos, pensou que o pior poderia acontecer. Não, nada tem a ver com Paulo se jogando da sacada do apartamento ou algo assim. Nem que ele levasse a amante para lá na mesma noite. Pior, mesmo, seria o carro dele estar entrando na garagem no exato momento em que ela estivesse saindo. Uma infeliz coincidência do destino.

Riu nervosa quando viu aquele carro prata parado do lado de fora esperando o mesmo portão se abrir. Não era o marido. Era apenas um morador que tinha um modelo idêntico. Respirou aliviada quando viu a placa. E chorou. Entendia exatamente o motivo, mas misturou até a raiva que conteve durante algum tempo. Chorou mais ainda.

Ela ia embora, mas queria a briga. Queria a descoberta. Queria aquela merda grande o suficiente para fazer bater a porta e ter a certeza de que nunca mais voltaria. Desejou a falha, desejou o sofrimento de ser enganada, desejou ser vítima. Queria apenas a briga de amor que não foi causada.

Queria amor, mas já nem sentia mais.

(Gustavo Lacombe)

http://www.facebook.com/GustavoLacombeTextos

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