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Não esquece o porta-retrato.

Leva tudo. Leva teu sorriso, teu cheiro. Inclusive as lembranças que o que me fez de bom vão insistir em querer ficar. Não quero nada. Hoje, não. Qualquer coisa, deixa numa caixa e esconde no armário. Ah, não esquece suas roupas. Nada de deixar uma peça pra trás só pra me fazer ter saudade. Ou tentar me fazer ter saudade. Não terei. Serei apenas a certeza de que me abrir e expor demais é perigoso. Sabe lá Deus quando eu farei isso novamente.
Se eu me tornar uma pessoa mais fria, a culpa é toda sua.
Não quero deixar uma frase de efeito no final. Aliás, quem conhecia nós dois como casal sabia que esse desfecho era o único que eu não imaginava para nós dois. As variáveis possíveis se apoiavam em números. Quantidade de filhos, de cachorros e de filmes para assistirmos juntos. Ou de quilômetros percorridos em viagens intermináveis e sem planejamento que sonhávamos em fazer. E agora tudo rui. Desmorona. Tudo virou um grande “por quê?”.
Por que fez isso comigo? Por que me deixou sentir bem mais do que eu deveria? Por que não foi sincero? Por que me entregou um amor tão bonito para depois voltar com algo tão cruel? Por que fez planos e promessas? Por que usar de mentira a quem lhe entregava confiança? Estou naquela posição em que as perguntas nada mais são que o martírio de encarar a verdade: eu ainda não consigo te perdoar. E nem ao menos quero ter vontade de um dia fazer isso.
Talvez tenha sido minha própria culpa. Você não deve saber o peso que tem me olhar no espelho e me perguntar “onde foi que eu errei?”. Não, você não tem. Você deve dizer por aí simplesmente que acabou. Que, agora, voltou pra vida de solteiro. Deve, inclusive, dizer a alguns amigos meus que se arrepende de algumas coisas, mas que a vida é assim mesmo. E, ainda que fale em voltar, você mesmo sabe que não quer isso.
Só que é mais fácil fazer a cena. Amor digno de Oscar.
Não esquece nada, tá? Ou melhor, esquece que um dia eu deixei você se instalar na minha vida e conhecer tanto de mim. De todos os medos, todos os segredos, todas as vontades, todas as dores, todos os amores, todos os pudores, todos os projetos, tudo que era sonho, tudo que era concreto, de tudo um pouco que eu guardava em mim tinha você. Ou como aprimoramento ou como solução. Não importava. Éramos casal. Hoje, não somos nada. Nem um ponto final.
Isso eu também não quero lembrar, mas esse “por quê?” eu sei.
[ Gustavo Lacombe ]
instagram = @glacombetextos
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