@glacombetextos

Você nem queria sair naquele dia. Ficou horas escolhendo a roupa enquanto esperava sua amiga desistir de ir para aquela festa que tinha nome estranho, provavelmente gente chata e música ruim. Eu, quando te vi, acabei passando direto e só reparei que você era bonita. Atração visual pela embalagem é a primeira coisa que chama a atenção nesse lugares, e não era culpa da sociedade nem nada. É só uma constatação. Quis o acaso que, depois, a gente se esbarrasse e provasse que balada também é lugar para uma boa conversa.

Peguei seu telefone, te mandei mensagem uns dias depois. Saímos. Você não gostou nem um pouco dos três primeiros filmes que eu escolhi, mas disse que eu acertei dali em diante. Acertei, inclusive, nos outros em que te alertava para a “qualidade”. Você sempre me levou ao cinema para aqueles “cabeças” e eu sempre fui atrás dos que vinham com squeeze junto com a pipoca. E assim a gente foi se entendendo. O escuro do cinema serviu para primeiros beijos, primeiros olhares, primeiros “eu te amo”. Lembro de como você me disse junto com o protagonista naquele final clichê em que tudo no roteiro se acerta.

E você acertava tudo que havia de errado em mim.

A gente continuou indo para festas. Nosso primeiro aniversário de namoro foi numa dessas. O segundo acabou acontecendo num restaurante, mas o terceiro foi na sua formatura. Ocasião mais especial não poderia existir. Eu, você, nossas famílias e aquela sensação engraçada de estar dando um passo maior. Não em direção a casamentos e celebrações impostas pelos costumes, mas a clara certeza de que eu queria estar por perto para ver tudo que acontecesse contigo e queria você por aqui para comemorar as coisas que acontecessem comigo. E, assim, construir coisas juntos.

Nosso primeiro apartamento veio um pouco depois de você ser promovida no emprego. Sejamos francos: era você quem pagava a maior parte das contas da casa e isso nunca foi problema. Se eu sempre procurei te fazer se sentir especial, você nunca deixou dúvidas de que eu era uma das coisas mais importantes para você. Nossa casa sempre teve o cheiro da delícia do amor recíproco, que se misturava no ar ao pão de queijo de domingo, a pipoca de panela e os jantares especiais.

Já tinha sido decidido que não haveria casamento quando você quase engasgou com a aliança no copo. Lembro que foi uma semana antes de você me contar que estava grávida, mas isso não te fez voltar atrás no “sim”. Casamos em Búzios, na praia, ao pôr-do-sol, do jeito que você me contou que uma vez tinha sonhado quando menina. Rolou um jantar e depois a gente foi pra uma boate, só pra relembrar um típico cenário onde não se procura amor, mas onde a gente acabou se encontrando. E não teria sido numa hora mais propícia.

Engraçado, mas lembro que nesse dia a gente brigou. Aliás, a gente já brigou várias vezes. Lembro do primeiro dia que eu dormi “de mal” contigo. Foi horrível, mas você sabe que eu tinha razão. Lembro de quando catou suas roupas e foi para a casa de uma amiga. Cheguei a cogitar o pior, mas depois lá estava você na porta, com mala, mochila e um abraço apertado dizendo que não conseguia ir embora de vez. Já pensei em te largar também, mas sempre que fechava os olhos, era você quem vinha na minha frente.

A gente só sabia se achar na gente.

Num dia chuvoso de Verão nasceu nosso primeiro filho. E mal ele começou a engatinhar, o segundo já figurou no horizonte. Quando colecionávamos trabalhos do colégio de Dia das Mães e Dia dos Pais, encerramos com gêmeos. Foi duro virar as madrugadas tomando conta de todas as crianças e fazendo contas sobre as despesas do mês. Houve dificuldades no caminho, mas nunca faltou alegria nessa família. A gente aprendeu o ofício de ser pai e mãe. E você foi a melhor mãe que meus filhos poderiam ter. Até mesmo nas horas que você acha que falhou, tenho certeza que seu coração falava mais alto.

E o coração por vezes se engana, mas nunca está errado.

Quando começamos a ter que lidar com festinhas até de madrugada, preocupações sobre álcool e adolescentes em crise, inúmeras vezes acabávamos rindo de nossas histórias e lembrando de como demos trabalho aos nossos pais. Esses moleques de hoje não tem noção do quanto nós já aprontamos. E, quando a gente diz isso pra eles, eles fazem aquela cara de incrédulos. Sim, seus pais já tiveram as suas idades e sabem do que hormônios e ideias idiotas podem ocasionar.

Quando piscamos os olhos, estávamos no primeiro casamento de um dos nossos meninos. Logo depois éramos avós. Claro que estragaríamos nossos netos. Coca-cola, sorvete e bolo de chocolate eram lei lá em casa. E eu voltei a cozinhar brownie pra você e pros nossos novos xodós. Ficávamos olhando para aquele sono tranquilo de uma das nossas netas e fazíamos sessão de flashback. “Lembra de como nossa filha demorou pra escolher o que queria ser?”. “Recorda a formatura de ensino fundamental dos gêmeos?”. “Nosso mais velho sempre quis ser jogador de futebol. Acabou médico, mas operando joelhos de jogadores. Que ironia”.

Ríamos até dizer chega das viagens no tempo que fazíamos.

Você sempre me fez viajar. Se não era nos pensamentos perdidos enquanto lembrava de nós e planejava o próximo encontro, quando ainda éramos jovens, era nas férias em que tínhamos pouco tempo para entreter tantas crianças e descobrir onde seria ideal levá-las. Antes delas era mais fácil, claro. Viajamos muito de carro, de avião e no escuro de nossos quartos. Foi você quem me fez entender que qualquer lugar do Mundo pode ser nossa casa se estamos nos braços de quem a gente ama.

Passou tão rápido, né? Quarenta e dois anos depois e ainda estamos aqui, celebrando. Tempo inimaginável para uma criança que só pensa no agora. Objetivo longínquo para aquele casal que superou muita coisa juntos e que sempre superou as crises em que dava vontade de jogar tudo pro ar. O que dava defeito a gente consertava, não jogava fora. Consegui construir algo diferente dos meus pais, que tinham se separado quando eu ainda era pequeno. Você sempre teve o espelho dos seus pais, que ficaram quase sessenta anos juntos. Por fim, entendemos que a vida é uma estrada em constante construção.

Ainda quero muita coisa contigo. Até as bodas de ouro temos ainda oito anos pela frente. Que lugares você quer conhecer? Que experiências ainda quer viver? Nessa vida – e numa outra se houver – não vejo melhor parceira do que você. Poderíamos ter seguido diversos caminhos, mas acabamos aqui. Quer dizer, chegamos aqui com a vontade de ir bem mais longe. Já conversamos sobre isso outras vezes, mas quero deixar claro de novo que eu me sinto satisfeito pela vida que vivi contigo. Obrigado por ser essa mulher incrível pra mim. Obrigado por ter me dado a chance de construir tudo isso contigo.

E olha que você nem queria sair naquele dia.

[ Gustavo Lacombe ]

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