Cafajeste
Me chamam Lobo-Mau, me chamam Lobo-Mau…

É meio tragicômico, mas uma hora o cafajeste aprende que não pode ter todas as mulheres do mundo. Não se trata de simplesmente olhar e querer, abordar e conseguir. Estou falando de manter o “rebanho”, com todos os apelidos carinhosos e pejorativos que ele guarda para cada uma de suas novilhas, novinhas e afins. O poderoso Senhor de várias, de repente, se encontra sozinho em seu pasto imaginário. Mal sabendo que, em qualquer analogia anima,l seria ele a comer grama.

Um verdadeiro burro.

Tudo bem que esse “de repente” escrito aí em cima não é bem desse modo, tão de repente assim. Antes de ser atingido pela epifania de que não pode ter todas as mulheres na sua cama, ele vai passar por diversos estágios. Vai se pegar admirando a beleza da última bunda conquistada enquanto pensa nas primeiras e como era fácil demais a arte da sedução. Era mais jovem, mais viril. Começará a lidar com as rejeições mais frequentemente, sempre torcendo o nariz e dizendo que pra cada mulher que come, outras três dão o fora.

O cafajeste vai resmungar um “sempre foi assim” sorrindo e com a cara mais lavada possível. Vai ouvir mais comumente de amigos e pessoas próximas o quanto é vazio. Ouvirá aquele famoso conselho que, continuando desse jeito, acabará sozinho. E antes que a previsão se acerte, vai ser obrigado a amargar uma noite de vingança por parte de alguma dessas mulheres que se sentiu usada nas suas mãos. Vingança essa que não virá com algo feito especificamente pra ele, mas com os sorrisos nas fotos do casamento dessa moça.

Nesse dia – e esse dia sempre chega, como um cheque sem fundo que cobra sua conta – ele se perguntará se poderia ser ele no lugar do noivo. Se, vestido com aquele terno italiano feito sob medida que ele tem no armário, poderia ser a sua vez. Entretanto, logo ele deixará o pensamento embaçar ao olhar as madrinhas que, em fila, parecem desesperadas para arrumar um homem. E esse, sim, é o homem que ele pode ser pra elas. Sempre foi assim.

À reboque dessa noite, viverá algumas outras experiências como encontrar alguma de suas ex no shopping de mãos dadas com outro cara. Sorridente e feliz. Ou, pior, telefonará para algumas das meninas em sua interminável agenda-cardápio e será descartado. Por todas. O motivo de todas que atenderam do outro lado da linha: prefiro ficar sozinha do que passar outra noite contigo. E vocês pensam que ele se deixará abater? Claro que não.

Vai repetir pela enésima vez a velha frase “sempre foi assim”.

Até que uma hora vai acontecer o inevitável. Entre recordações de festas, conquistas e muitas bocas que passaram por ali, ele se olhará no espelho e tirará a conclusão mais óbvia do Mundo: não se pode ter todas. E antes de tomar um calmante e realmente repensar todo o seu modo de encarar o jeito com que levou as relações que teve durante todo esse tempo, vai sentir a ficha da solidão cair. Sozinho, adormecerá disposto a mudar, em meio aos pensamentos de que é um merda na verdade.

No dia seguinte, acordará medindo o que sentiu por todos aqueles seres do outro sexo com quem brincou. Descobrirá alguma de quem realmente gostou, ainda que depois abrisse mão dela em nome da vida de galã que levava. Ligará e, a partir desse momento, é impossível prever o desfecho da história. Entre a possibilidade de ouvir uma risada do outro lado da linha e a afirmação de que ela sempre esperou por aquela ligação, há muito mais arrependimentos e variáveis que nossa vã filosofia pode conhecer.

O certo é que, cedo ou tarde, todo cafajeste vai querer ser o mocinho. De verdade. Sem máscaras, jogos ou premeditações de mandar embora a última conquista. Quando sentir o frio lhe abraçar o corpo. Quando pensar que poderia ter tido alguém como companheira, mas preferiu ser assim vazio.

Aliás, sempre foi assim.

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