Achei engraçado o que ouvi num dia desses. Um conhecido meu, depois ter sido apresentado a uma menina, voltou a estudar piano. Aí, você me pergunta o que uma coisa tem a ver com a outra. Simples. Durante a conversa entre os dois, ela disse que adorava homem que toca instrumento. Ele não se fez de besta e mandou logo um “eu sei tocar piano”. Mentira. Ele, no máximo, consegue praticar algumas escalas. Talvez uma musiquinha de Natal aqui, outra peça simples ali, mas nada de demais.

O plano? Impressionar a guria, claro.

No dia seguinte ele já tinha ligado pra professora e marcado a volta às aulas. Acabou mudando toda a sua rotina para encaixar aquelas horas na frente do velho piano de parede do pai e realmente cumprir a promessa que tinha feito à garota: um dia toco alguma coisa legal pra você. Eles passaram a se encontrar mais frequentemente e a conversa sempre voltava ao instrumento. Ela ria do jeito meio bobo dele e dizia baixando os olhos com vergonha “piano é lindo”.

Talvez seja essa disposição que esteja faltando hoje em dia com as pessoas. Mal levo em consideração o fato do cara ter exagerado ao dizer que tocava. Fala sério. O esforço dele em tornar mais que realidade aquilo que tinha dito só pra impressionar aquela garota já era algo de se bater palma. Quando os amigos perguntavam o porquê daquilo tudo, ele simplesmente ficava vermelho e guardava a resposta que tinha pra dar.

Talvez os vizinhos não tenham gostado muito daquela barulheira toda no meio da tarde. Nada é mais chato que alguém aprendendo a tocar um instrumento. Não sai nada de muito interessante dali. Só que, uns dois meses depois, ele finalmente conseguiu convencê-la a ir escutá-lo. E não foi um convite malicioso. Chamou-a pra assistir a uma aula mesmo, com direito a exercícios intermináveis e músicas sem graça levadas pela professora e ensaiadas à exaustão.

Depois da aula e da professora ir embora, ele tocou “My Funny Valentine”.

Ela conhecia, sorriu. Ele sabia daquilo, viu. Errou umas três notas, nervoso. Devolveu o sorriso. Ele sentou um pouco mais pro lado do banco e fez sinal pra ela se sentar ao seu lado. Ela veio. Se encostou. Sorriam de novo. A música acabou, mas outra coisa começou. Um beijo. Uma história. Pensou na resposta que nunca deu aos amigos, mas que sempre pensava quando eles perguntavam:

– Se vocês vissem nela o que eu vejo, não aprenderiam só um instrumento. Construiriam logo um foguete só pra mostrar como fica o coração toda vez que ela se aproxima.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
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