Encarou-me e deu sorriso de lado. Eu, meio sem acreditar, baixei os olhos e pensei “é mentira”. Virei de costas. Fiquei de frente pra turma que me acompanhava naquela balada. Ou night, no vocabulário mais próprio ao carioca. Voavam pensamentos do diversos e um sobressaía. Essas coisas nunca acontecem comigo. Então, por que hoje, eu teria essa sorte? Virei o pescoço pra tentar enxergá-la. O inconfundível vestido preto – com aquelas pernas de fora – estava ali, mais perto agora. 

Tentei encará-la, mas já estava bem mais perto do que eu tinha reparado. Passou por mim devagar, sussurrou no meu ouvido “vem cá”, e nem sequer se deu ao trabalho de olhar para atrás. Ela sabia que eu a seguiria. E eu, feito um bobo, fui. Com os passos ritmados ao som da música que enchia o ambiente, vi a hora que ela parou num cantinho. Escuro. Parecia conhecer cada espaço daquele lugar. Parecia que capturava a presa e a levava pro banquete. 

Para ser o banquete. 

Quando eu cheguei, minhas mãos suavam. Ela jogou o cabelo castanho pra um lado, me ofereceu o pescoço e disse “morde”. Não, essas coisas nunca acontecem comigo. Pude ver a ponta de uma tatuagem que, provavelmente, descia pelas costas dela. Mordi ali. E fui subindo. E tudo subia junto em mim. A pressão arterial, os batimentos cardíacos e, claro, o que você está imaginando também. Quando cheguei na boca, ela quase arrancou um pedaço do meu lábio. Não sei quem nos via. 

O ambiente era mal iluminado. Propício. As pessoas tinham mais o que fazer do que tomar conta de nós ali. Pensei em perguntar o nome dela, mas minha língua já estava ocupada demais. O cheiro do perfume invadia meus pulmões sem pedir licença alguma. Quando eu dei por mim, pensei “puta que pariu, que sorte”. Não havia tempo pra ficar me perguntando o motivo daquilo. Há momentos na vida em que só é cobrado vivê-los. 

A música pareceu aumentar. O escuro também. Ela botou a mão por dentro da minha calça e me encarou. Deu outro sorrisinho malicioso. Me arrastou pro banheiro. Se alguém viu? Não sei. Sei que a gente se trancou numa das cânones e ela me chupou. Tirou uma camisinha de um bolso escondido no forro do vestido. Praticamente me comeu. Descansou alguns segundos no meu colo e, outra vez sorrindo, pediu meu celular para anotar o telefone, abriu a cabine e foi embora. Deixou registrado com o nome “Sorte”. 

Ô, Sorte.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, é encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

Anúncios