Eu odeio beijo na testa.

Criei um trauma desde que ele me pegou pelas bochechas, me olhou no fundo dos olhos e me beijou a testa. Não precisava dizer mais nada. Estava claro que, a partir daquele momento, ele queria ser apenas meu amigo. Amigo uma ova, cara! Eu ainda o amava, ainda sentia algo pulsando e podia jurar que esperneava por dentro, mas me mantive impassível. E como quem finge não ter entendido, ainda fui capaz de perguntar “o que é isso?”. Ele não respondeu, claro. Covarde que só, virou-me as costas e me deixou sem resposta. Eu o entendo. Hoje eu entendo. Mas lá atrás quando a gente estava/não estava mais junto, eu era um poço de ódio. Ele conseguiu, num único gesto, deixar uma das marcas mais profundas que hoje eu carrego. E não adianta ninguém me dizer sobre o significado de carinho e afeto que ele tem, nem me fazer lembrar de que todos os netos de minha avó pediam a sua benção e depois ela dava um beijo nas nossas testas. A partir daquele dia, aquele seria um lugar sagrado. Meus amigos que me beijem o rosto e meus amores por vir que me beijem a boca. Acho que esse, sim, é o maior significado de que você quer alguém. Um beijo molhado, estalado, hollywoodiano, daqueles de tirar o fôlego. Essa coisa de só querer o bem o outro pode ser desejado com um abraço, ou um aperto de mão mais formal. Poupa meu tempo, poupa meu espírito e poupa a minha paz. Até hoje, quando alguém faz que vai me beijar a testa, eu posso sentir as mãos quentes dele, posso ouvir a respiração apressada e pressentir o pior, num flashback desgradável. Talvez eu devesse esquecer o trauma. Quando a gente carrega algo ruim, aquilo nos faz mal duas vezes. Ou mais. Talvez eu devesse deixar alguém me mostrar que é besteira isso tudo. São muitos talvez.

Quer saber? Eu ainda odeio beijo na testa.

[ Gustavo Lacombe ]

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