Ela foi-se embora levando tudo. Passou a mão nas roupas, nos objetos pessoais e até no shampoo. Não me falou pra onde ia, se voltava ou, muito menos, com quem ia. Preferiu o silêncio de uma despedida solitária. Eu estava no trabalho, voltei e encontrei a casa pela metade. A mobília no lugar, a comida no lugar, os aparelhos no lugar. Tudo no lugar, menos ela. Quer dizer, ela continuava em mim, mas já não era onde ela queria estar.

Largou um bilhete, por fim. Encontrei-o mexendo no armário onde ela guardava a maquiagem. “Não suportei a ideia de não conseguir te fazer feliz”, tinha escrito. Logo ela, a mulher que mais feliz já tinha me feito um dia. Um dia. Fiquei remoendo aquilo tudo como se eu fosse o culpado. Me autoflagelei e cheguei a cogitar sair correndo atrás dela. Talvez amanha. Dou um dia de vantagem para ela à minha frente.

Quando você é abandonado, passa a refazer todos os passos e se perguntar motivos. A consciência pesa, mas cria-se um sentimento de que esse foi o desfecho escolhido por um lado. Não adianta insistir quando alguém já não quer mais. Não queria minha mão marcada por murros em pontas de faca, suor na testa por nada ou uma vontade que só existisse em mim. Amor é dádiva, não esmola. Não espernearia ou mendigaria algo para tê-lo de volta.

Impossível, por sua vez, foi pensar nas mentiras. Enfrenta-se diversos sentimentos em si antes da conformação. Mas, de qualquer forma, será que eu fui traído? Será que ela já cogitava isso há tempos? Será que pensou em me contar e eu fui egoísta e não ouvi, não vi? Será que, tendo toda essa casa só pra mim, eu vou conseguir ocupar os espaços que ela deixou e seguir? Você se pergunta várias coisas só por não ter com quem conversar.

O mais engraçado foi que, no dia seguinte ao acordar, dei de cara com algumas coisas que ela deixou para trás. A gente sempre acha que leva tudo, mas esse tudo nunca cabe por inteiro na mala. No fundo de uma das gavetas, achei algumas fotos de nós dois. Em um dos cantos da cômoda avistei um resto do perfume dela. E, vasculhando um pouco mais minha memória dos dias anteriores, acabei escavando algumas mentiras que ela tinha me contado.

Quando você é abandonado, leva um certo tempo até retomar o ritmo de vida normal. Ela se foi levando quase tudo. E eu ainda tenho as coisas que ela deixou. As fotos eu acabei guardando. Preferi ficar com elas do que guardar rancor. O perfume eu deixei no mesmo lugar, esperando que eu crie coragem para jogá-lo fora ou algo assim. E, bom, as mentiras deixadas agora me servem pra poder dizer aos outros que já a esqueci. Não poderia haver aprendizado melhor.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

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