Ele tinha vinte e três. Ela vinte e um. Se encontraram um dia, por acaso, num dos bares da Cidade Baixa. Ela comemorava o aniversário de uma amiga, ele tinha ido assistir o jogo do Internacional. Ela era gremista, mas não ligava muito pra futebol desde que um ex-namorado (colorado) a trocou por um jogo. Um jogo que não valia nada. Libertadores. E ela, claramente, sabia o quanto valia. Ele levantou xingando um pênalti não marcado. Ela se assustou e olhou direto pra ele.

Ficaram três longos segundos se olhando.

Ela se virou para as amigas e reclamou do barulho. Fez a queixa que uma outra do grupo já tinha feito sobre irem para aquele lugar e não terem ido à Padre Chagas. Ele se distraiu e esqueceu o pênalti. Perdeu também a falta, o cartão vermelho que o adversário tomou em seguida, e só deu tempo de se virar para a televisão e assistir a bola entrando depois da falta bem batida. Gol. Ela reclamou de novo do barulho e se virou para ele. Ele mal comemorou, olhando pra ela.

Ele mandou um bilhete. Perguntou o telefone dela. Ela, entre os risinhos das amigas, fingiu jogar o papel fora, mas anotou depois e pediu pro garçom entregar quando foi embora. Trocaram mensagens. Não tinham amigos em comum no Facebook. Ela alegou cansaço e logo foi dormir. Ele estava chegando em casa ainda, mas ficou feliz de ter dado certo o bilhete. Era tímido, bem diferente do que precisava ser no trabalho. Ela se deitou pensando nele. Não era a primeira vez que escrevia o telefone num papel, mas se sentiu diferente.

Ela fazia direito na PUC. Ele não teve chance de entrar na faculdade. Completou o Ensino Médio e depois fez um curso de barista. Não sabia bem para o quê aquilo serviria, mas acabou indo trabalhar num Café. Ela morava no Bela Vista. Fugia do estereótipo tradicional e não se furtava em pegar ônibus, mas vivia numa família que tinha até motorista. Ele era da Zona Sul e pegava o Juca Batista todo dia para o trabalho. Realidades completamente diferentes, sem dúvida.

Mas pensamentos completamente fixos um no outro.

O dia seguinte era um domingo. Ela levou um casal de amigos vindos São Paulo para conhecer Porto Alegre. Ele foi trabalhar sabendo que largaria mais cedo. Trocaram mensagens. Sorriram pros respectivos celulares. Comentaram terem conhecido alguém com alguém que estava do lado. Sorriram de novo. Decidiram se encontrar à tarde no Parcão. Ela mostrava o centro pros amigos. Ele chegava ao Centro Cultural Mario Quintana para o serviço no Café Santo de Casa. Foi exatamente lá que ela resolveu almoçar.

Enquanto ele servia a mesa 4, ela se sentou de frente ao número 32. Ela chamou uma senhora, que cutucou um rapaz e mandou ele ir. Ele foi atender. Eles se olharam. Obviamente se reconheceram. Ele sorriu. “Você?”, disseram. Ela não sabia o que sentir. Ele entendeu. “O que a senhorita deseja?”, perguntou formalmente. “Uma água”, pediu a amiga. Ela ficou muda. “Mais alguma coisa agora para servi-los?”. Recebeu o silêncio. Saiu. Enquanto buscava a água, eles foram embora.

Ele deletou o número dela. Ela sentiu-se envergonhada. Por tudo. Explicou aos amigos a situação, mas já estavam na rua. O casal tinha entendido, mas achou que eles tinham se beijado em alguma balada ou algo assim. Era pior. Ela estava apaixonada, mas não sabia nada da vida dele. Agora já sabia que era garçom. “Um garçom!”, imaginou a mãe dizendo e o pai rindo. Ele acabou o serviço e foi pro Parcão. Queria andar, espairecer. Imaginava que ela não fosse aparecer lá, mas carregava uma esperança meio boba.

Não alimentava o orgulho, mas entendeu a surpresa dela.

Convencida pelos amigos, ela tentou ligar. Ele tinha desligado. Resolveu ir ao parque, lembrou que não tinham especificado um lugar. Ele se sentou sob uma sombra e ficou olhando umas pessoas. Ela andava sem rumo. Apaixonados, se perguntaram o que fazer com aquilo que mal tinha nascido em cada um. Suspiraram achando que tinha sido até melhor assim. Quando não cria raiz, não machuca. Quando ainda está no começo, é mais fácil arrancar alguma coisa do peito.

Mas a Vida não entendia assim.

Acabaram se encontrando, claro. Ou você acha que o Acaso deixaria barato? Ou você acha que o Destino não interviria? Ou você acha que Porto Alegre é só uma cidade fria? Se esbarraram quando ela andava em direção a uma lixeira para jogar fora um papel de bala. Ele ia pro ponto de ônibus. Ela se virou rapidamente e bateu nele. Ele ia protestar, mas aí se deparou com os olhos dela. Se encararam. Ficaram três longos segundos se olhando.

“Você?”.
E, não se contendo, acabaram sorrindo.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

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