Faz Parte do Nosso Show

A gente se conheceu na escola. Ela saindo da aula, eu indo buscar a minha irmã para levá-la ao dentista. Ela com dezesseis, eu com recém-completados dezoito. Foi num olhar que surgiu o interesse. Meu. Foi num ato meio impensado que se criou o contato. Eu cheguei e perguntei:

– Quer carona?

Ela sorriu e disse que não precisava. No dia seguinte, lá estava eu de novo. Minha irmã estranhou, claro. De onde tinha surgido aquela boa vontade toda? De novo eu a vi. De novo ofereci carona. De novo ela recusou, mas o sorriso foi tão lindo que eu não resisti:

– Me dá seu telefone?

Foram longas conversas até ela aceitar sair comigo. Marcamos no Arpoador, numa dessas tardes de horário de verão em que o Sol nos dá o prazer de sua companhia até mais tarde. E ela, ainda que desconfiada, me deu o gosto de tê-la ali comigo. Brinquei:

– Você quase não veio, né?

Nasceu ali. Ainda iria pegá-la mais um tanto de vez no colégio. Fizemos muita coisas juntos. Gostávamos de ir às festas no Circo Voador. Eu era exagerado e, numa dessas noites, fiz com que um cantor que a gente gostava lesse um recado meu pra ela. “Diz aqui no bilhete que ele te ama”, ele mandou em alto e bom som. Mais tarde, sugeri:

– Quer sair daqui agora?

A gente foi para a minha casa. Aquela seria a primeira vez. Testando o sexo e descobrindo cada cantinho um do outro, era uma delícia deslizar os dedos nela e estar com os olhos bem abertos. Eu me abri, contei segredos, me coloquei em suas mãos:

– Quero sempre te proteger da solidão.

Ainda me lembro quando a gente teve a primeira briga. E foi logo uma daquelas feias. Precisava desabafar e fui procurar uma amiga dela que, depois, provou ser quase inimiga de nós. Voltei ao Arpoador e senti o tamanho do vazio ao ver o pôr-do-sol sem ela. Inventei uma desculpa e fui até o apartamento dela, que não me atendeu. No mesmo dia ela me procurou:

Diz que eu não estou.

A volta foi questão de tempo. Não tinha outro jeito. Aquilo tudo fazia parte de todo nosso show. As saídas do colégio, o namoro no portão do prédio, as briguinhas por ciúme onde um saía de cara amarrada, a dor de uma noite sem o “boa noite” dela, o Arpoador. A Bossa Nova que ela gostava e o Rock’n’Roll que a gente dançava:

– Quer ouvir aquela de novo?

E até hoje, nosso amor está por aí. Nos sorrisos que se abrem na praia pra ver o Sol sumindo. Nas promessas malucas que se assemelham aos sonhos bons. No imaginável retrocesso de se jogar numa paixão em meio a tanta gente que convive com o medo de se permitir. Faz parte do nosso show:

– Meu Amor.

[ Gustavo Lacombe ] –

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
http://www.bitly.com/LivroLacombe

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