Eu sinto falta do cheiro do teu cabelo.
De como ele grudava na minha camisa e, mesmo que longe, parecia que você ainda se aninhava no meu peito e me olhava. E, logo depois, começava as suas frases com aquele apelido que só você usava. Aí, aquela imensidão de fios caía sobre mim quando se mexia e vinha pra cima. A boca, sempre quente, se abria para o beijo no exato instante em que passava a perna, parecendo querer me prender.
Podia ser no sofá, nas almofadas jogadas no chão da sala ou na sua cama que, de tanto ranger com nós dois, teve o colchão promovido ao nível do solo. Imagina se a gente iria querer acordar quem estava no quarto ao lado, né? E, depois de todo amor feito, eu te abraçava, sentia teu calor e não me preocupava com o suor que escorria nos nossos corpos.
Quando me levantava, dava de cara comigo no espelho do banheiro. Por vezes me peguei olhando dentro dos meus próprios olhos e dizendo “você tem muita sorte, cara”. Olhava pra trás, te via de costas e nua. E, quando você virava, percorria meus olhos por toda a sua extensão. Pernas, coxas, barriga e colo, mas meus olhos sempre paravam nos seus cabelos.
Mesmo depois de analisar nariz, queixo, boca e olhos, eu ainda tinha fascínio pelos cabelos. Lugar preferido de pouso das minhas mãos (ainda que teu quadril, bunda e peitos fizessem forte concorrência). Ali, elas se embolavam e ficavam. Tal qual alguém que se embrenha num labirinto sem querer achar a saída, esse era eu nos teus lençóis, sem querer encontrar despedida.
Os dias facilmente poderiam se resumir a nós dois. Literalmente dentro de você, além da morada que um já tornara o coração do outro, vivíamos o ápice de um amor tão surrado, maltratado e acostumado a idas e vindas, brigas e reencontros, mal entendidos e explicações, mordidas e sopros, saudades e chegadas, choros e risos, acasos e o cumprimento de um destino.
Eu sinto falta do cheiro do teu cabelo.
[ Gustavo Lacombe ]
“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui:
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