Pra começar nossa conversa, eu queria três filhos, tivemos dois.
E, às vezes, eu quase te odeio por isso.

Fico revirando na minha cabeça todos os outros motivos que tenho pra te detestar. Chego a ter raiva por eles ficarem saltando na minha frente e apontando seus defeitos, rindo e zombando da minha cara que te aceitei assim. Você é tudo aquilo que eu jurava que não iria ter num domingo à tarde quando eu passasse dos meus quarenta anos.

Quando eu conversava com a minha mãe sobre a vida dela e dizia que não repetiria os mesmos erros ou quando eu ficava naquela coisa de criança com as amigas tentando adivinhar o futuro, sempre dizia que arrumaria alguém que seria sempre ativo, bonito e que, de vez em quando, cozinharia para mim. E você veio com tudo fora de lugar.

Tem mais, claro: você faz coisas que eu simplesmente detesto. Nesses dias em que fico remoendo seus erros, penso em como fui capaz de entrar na Igreja toda de branco e dizer “sim”. Você já deixava a toalha em cima da cama, você já não me levava mais café na cama e eu já vivia pedindo pra você largar a cerveja e entrar na academia. Olha em que ponto chegamos.

Dezesseis anos depois, enquanto você coloca os pés no mesa de centro e a televisão no futebol, estou aqui do seu lado abraçada aos nossos filhos que entraram naquela fase de perguntar o porquê de tudo. E ontem eles me perguntaram se eu não tinha encontrado alguém melhor do que você na minha Vida.

Vê se tem cabimento essa pergunta!

Primeiro eu disse que sim, que havia encontrado outros homens muito melhores do que você. Alguns eram ricos, outros sarados, e conheci até aqueles que beirariam a perfeição, mas nenhum deles tinha os seus defeitos. Nenhum deles sabia arrancar um sorriso meu no meio de uma briga.

Nenhum deles conseguia enxergar o lado bom das coisas em qualquer que fosse a situação – como quando o pneu furou e a gente ficou esperando o reboque porque o carro estava com o estepe vazio e você disse que era bom porque, pelo menos, a gente ficaria mais um tempinho juntos e tinha um bom motivo para chegar tarde em casa.

Nenhum deles saberia dizer quando estou na TPM tão bem e me trazer paçoca para comer. Nenhum deles repetiria as piadas infames como “pra que arrumar a cama se nós vamos desarrumá-la mais tarde?” – e, o pior, ainda me fazer rir disso.

Às vezes, eu quase te odeio por um segundo inteiro. Minha vida poderia ter sido completamente diferente, eu disse aos meninos, mas certamente eu não teria sido tão feliz quanto eu tenho sido com vocês nessa Vida.

E eu te odiaria se você não existisse para me dar isso tudo que a gente tem.

[ Gustavo Lacombe ]

“Destino, Acaso ou Algo Mais Forte”, meu primeiro livro, pode ser encontrado aqui: http://www.bitly.com/LivroLacombe

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