Ela vira pra mim e começa a contar detalhes da vida pessoal dela. Não, ela até agora não percebeu que eu gosto dela. Eu me faço ouvidos pelos motivos óbvios: sou amigo dela. E, então, existe uma encruzilhada em que eu me meto para poder estar perto dela e ser presente. Sacrifico meu Amor por algo tão bonito quanto: a nossa amizade.

Não espero que as outras pessoas entendam, mas eu sei que faz sentido para mim. Não me declarei ainda porque tenho medo. Ela sempre chega me contando algumas de suas desventuras amorosas e várias vezes eu já disse que não sou uma mulher para ela se ater a detalhes sórdidos, mas ela ri e apenas me diz que confia em mim e nos meus bons conselhos de amigo.

Mais um corte por dentro.

Se fosse para aconselhar de verdade, diria que ela está perdendo tempo com esses idiotas que apenas querem bagunçar lençóis e não serem nada além de uma trepada. Diria que ela precisa parar de sofrer por tanta gente que só sabe brincar e começar a olhar para quem tem interesse em fazê-la feliz. E a olharia nessa hora bem fundo até ela atinar que estou falando de mim.

Entretanto, meu devaneio termina no momento que ela pronuncia novamente a palavra “amigo”. Outra ferida. Sentado à mesa do bar, peço outro chope para disfarçar o ciúme e a impossibilidade de ir além. Já sustento aquele teatro por muito tempo, mas tem sido cada vez mais difícil.

Lembro do dia em que ela me disse que estava “estranho”. Passou, mas cá estamos aqui de novo e eu estou prestes a perder o juízo quando ela diz que vai tentar reatar com um ex. Um cara que nunca fez bem a ela, que não a tratava da forma que ela merecia e que, ainda por cima, a tinha traído no fim do relacionamento.

Ela contou que ele a tinha procurado, que tinha dito coisas bonitas e que estava mudado. Mudado em quê, meu Deus!? O mesmo filha da puta de antes com as mesmas palavras bonitas que usa para todas. Ela até agora não percebeu a obviedade de tudo que está se passando e eu não aguento mais.

Chego minha cadeira perto da dela, encosto meus olhos nos dela e miro minha boca. O beijo sai meio desesperado e, depois do susto inicial, ela retribui. Eu descolo os lábios, abaixo o rosto e vou embora, largando uma nota em cima da mesa. Mando uma mensagem de desculpas, mas não consegui me segurar. Eu precisava me libertar da paixão ou do meu teatro.

Tudo na Vida tem uma gota d’água.

[ Gustavo Lacombe ]

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