Antes que os beijos se transformem em agressões e passemos a nos fazer mal diariamente e ininterruptamente. Antes que os abraços que eram trocados com tanto carinho passem a ser maiores inconvenientes que protocolos formais. Antes que um comece a enxergar o outro como uma enorme pedra no sapato e um intransponível obstáculo para que seja plenamente feliz. Felicidade que era encontrada lado a lado, mas que agora só se sente quando se está distante.
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Melhor parar. Parar de varrermos para debaixo do tapete toda a desconfiança, toda guerra velada que se estabeleceu entre duas pessoas que tinham o pacto de dividir bem mais que uma cama. Uma guerra silenciosa e que não se admite. Melhor deixar de fuzilar o outro com as mesmas desculpas ou com as mesmas respostas céticas quanto ao presente e ao futuro. Se já não se consegue mais encontrar graça no que se vive e se passa a pensar no passado como um grande desperdício de tempo, melhor parar.
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Não é fácil, de certo, entender que a mesma cama já não cabe os dois. Não importa o tamanho. O que antes se fazia em ninho, agora se travestem de armadilha em que, todas as noites, precisamos cair. É difícil aceitar e traçar a linha do tempo que desencadeou em poucas memórias gostosas e apenas a verdade dolorosa de que não se tem mais para onde seguir. A estrada acabou e o que resta é afogar no peito o que sobrará do sentimento. Antes que o Amor se transforme algo ruim. Melhor parar.
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 Em certos devaneios, viaja-se longe para quando tudo começou. Todo início parece o Paraíso. Todos os defeitos são abraçados, as qualidades exaltadas, os beijos mais longo, o sexo mais quente. Os erros são bem mais perdoáveis. Tenta-se encontrar os primeiros tropeços e há aquela pontada de arrependimento em não ter conseguido mudar. Tenta-se pensar que, sendo alguém diferente e beirando a perfeição, poderia tudo ter dado certo. Certo do jeito que hoje já não há mais disposição para se alcançar. Tenta-se refazer tudo que foi feito só para não ter que enfrentar a dor de partir.
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E, sem que se possa mudar algo, abre-se aquela vida em duas e se passa a viver efetivamente separado – o que já era assim há tempos. As noites lado a lado já tinham se transformado em mentiras. O que era tão verdade já tinha descambado para uma falsidade. As respostas tinham se tornado automáticas, vazias e sem um pingo de afeto. Talvez apenas com a torcida de que um dos dois pudesse dar o primeiro passo. Antes que alguém se machuque mais ainda, melhor ser sincero. Nem que seja pela última vez.
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Melhor acabar antes que seja tarde e o estrago seja maior.
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[ Gustavo Lacombe ]
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