Bruna sofreu o seu primeiro assédio aos onze anos. Estava indo na padaria com uma amiguinha comprar picolé e sentiu uma mão apalpar sua bunda quando estava na fila pra pagar. Assustada, deu de cara um velho que pedia para ela andar depressa porque estava com pressa. Ninguém falou nada da cena e ela mal se lembra se alguém realmente viu o que aconteceu.

Ela talvez não saiba, mas a caixa viu. Viu e não falou nada porque, Isabella, a caixa da padaria, também sofria assédio. No caso de Isa, ele vinha do dono do estabelecimento que sempre fazia comentários sobre sua forma física. Ela nunca deu liberdade para que ele fizesse aquilo. Inclusive, o patrão sempre a comparava com a esposa. Dizia que ela era bem mais gostosa que a mulher.

Roberta, a mulher do patrão de Isabella, que viu Bruna sofrer o seu primeiro assédio naquela padaria, ainda sente vergonha ao se recordar-se de quando um amigo de seu pai o chamou para sentar em seu colo e a fez sentir algo estranho em sua calça. Roberta tinha treze anos e entendeu perfeitamente o que tinha acabado de passar. Correu pro quarto e se trancou. Disse a mãe que estava preocupada com uma prova no colégio.

Marília, a mãe de Roberta, anos antes já tinha desenvolvido um trauma e o medo de andar em uma das ruas do bairro em que morava. Naquela mesma rua, ficou sabendo, Marina, sua vizinha, tinha sido assaltada. Marina estava de vestido e o ladrão pediu, além da bolsa, a calcinha dela. Achou que seria estuprada, mas não foi. Marina não passou naquela rua por meses.

Marina cresceu e teve uma filha, a qual deu o nome de Bruna. Bruna sofreu seu primeiro assédio numa padaria, mas isso é apenas coincidência com a primeira personagem desse texto. Todas elas, em algum momento, pensaram que teria sido mais fácil ter vindo homem ao mundo. Todas são personagens fictícias, mas plenamente plausíveis.

Enquanto isso, há quem pense que vai tudo muito bem no país do Carnaval e que não é preciso discutir nada. Fiu-fiu é normal. Cantar é normal. Elas que deveriam “se dar ao respeito”. Não, há quem não enxergue que o que falta é respeito. Não delas, mas para com elas.

[ Gustavo Lacombe ]

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