A porta do carro fecha com uma batida seca e ela olha diretamente pra mim. O relógio no painel marca oito e meia. Vejo um brilho diferente vindo não somente daquele olhar, mas do sorriso, da roupa, de tudo. Tem alguma coisa que eu não consigo identificar na hora. Talvez seja do cansaço da rotina, talvez seja o mal de todo homem deixar escapar algum detalhe sobre a mulher que ele ama.

Ela está de vestido, com as pernas bem de fora. Isso foi fácil notar. Ela está empolgada com algo acontecido durante o dia, me conta logo que entra. Me dá um beijo daqueles e pergunta o que vamos fazer. Não íamos pro cinema, pergunto. Pode ser, ela fala. O carro começa a se mover. Passo pela esquina da casa dela e fico imaginando o que se esconde por debaixo daquele sorriso.

Tem alguma armadilha sendo armada. E eu tenho certeza que sou a presa.

Chegando perto do shopping, ela pede pra eu entrar numa famosa rua da nossa cidade. Famosa pelo número expressivo de motéis e coloridos letreiros que tentam seduzir os casais que por ali passam. Ela me encara de novo e diz “Meu Bem, esquece o cinema. Não quero filme, quero sexo”. E ri. E passa a mão pela minha coxa. E pede pra entrar em qualquer um dos motéis logo.

Ela manda, eu obedeço. Se eu disser que não tinha pensado naquilo, estaria mentindo. Várias vezes já tinha pensado em sugerir que esquecêssemos o programa combinado e fôssemos direto pros “finalmentes”, mas sempre travava por algum pudor bobo.

Aprendi: vale qualquer proposta no Amor.

Fui praticamente atacado ao abrir a porta do quarto. Já chegou me lambendo, me mordendo, me chamando de gostoso e jogando a roupa longe. Montou em mim pedindo com todas as letras “faz amor comigo até eu ficar molinha!”. Tá bom, aquilo parecia mais uma outra ordem do que um pedido inocente.

Daqui pra frente não importa explicitar quantas horas ficamos ali, as posições que fizemos e os pormenores detalhistas. Pode-se imaginar o que o conjunto de mãos, dedos, bocas, pêlos e partes é capaz de fazer quando se tem amor, tesão e tempo. Pode-se resumir tudo no horário que saímos de lá.

Bem depois da Meia-Noite.

[ Gustavo Lacombe ]

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