A gente gozou junto. Ele olhando dentro dos meus olhos e pedindo que eu fosse com ele e eu gritando por dentro que iria aonde ele quisesse. Foi sublime. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas tinha sido o antes e durante mais gostoso pra mim. Pedi que ele soltasse o peso do corpo sobre mim e a gente ficou naquela onda de suor e prazer durante uns cinco minutos. O problema foi o que ele fez logo depois.

Disse que ia ao banheiro, voltou arrumado. Penteou o cabelo e disse que precisava ir. Por quê?, perguntei sem acreditar no que via. Preciso acordar cedo, respondeu. Amanhã é domingo. Eu vou correr. Você nem tem tênis de corrida. Um amigo vai me emprestar. Então, vai! E virei de costas, doida pra complementar com um “e não precisa mais voltar”. Consegui me segurar. Por hora.

Passou um filme na minha cabeça das outras vezes que tinha passado por aquilo. É tão fácil, né? A pessoa vem, se aproveita do convite e logo vai embora. Não comparei com os dias casuais, os lençóis amarrotados por diversão, mas com as vezes que achava que era bem mais que um corpo a ser usufruído. Quando a relação me dizia que eu era mais. Quando ele dizia. Me lembrei de todas as vezes em que me senti usada. Senti nojo dele naquele momento.

Ele veio pra me dar um beijo. Eu virei o rosto. Vai embora logo, pedi. Vai antes que a gente brigue. Por que a gente vai brigar?, ele perguntou cinicamente. Empurrei ele pra porta ainda enrolada no lençol. Chorando. Não sei exatamente o que se passava na minha cabeça, mas a sensação era a pior possível. Ele fincou o pé e me abraçou. Perguntou mais de uma vez o motivo daquilo tudo. Parecia um teatro – que eu não estava afim de aturar.

Meu maior problema não era pela despedida, mas pela forma. Não era por uma cobrança em ficar comigo, mas por ele ter vindo até aqui, transado comigo e depois ir, como se tivesse feito o serviço e pronto. Aliás, eu nem ao menos desconfiava da fidelidade dele, mas da tremenda falta de sensibilidade em fazer aquilo comigo. Que tivesse avisado, sabe. Mesmo sem ter prometido ficar, poderia fazer com que eu me sentisse menos puta.

A necessidade de falar algo depois daquilo não existiu. Ele saiu batendo a porta e eu fiquei remoendo um misto de culpa, de orgulho e de outros sentimentos indefiníveis. Era como se um lado estivesse feliz por ter tomado aquela atitude e a outra se chocado. Meia hora depois, ou quase isso, ele voltou. Uma mochila nas costas, uma rosa na mão e cara de cachorro que caiu da mudança. Me desculpa? Posso ficar pro fim de semana?, ele perguntou.

Eu respondi ainda brava “não pode”. Eu te amo, mas você vai passar o fim de semana sozinho ou com quem você quiser. Pra você aprender como se trata uma mulher.

[ Gustavo Lacombe ]

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