Se Eu Soubesse Que Você Era Isso Tudo…

Se eu soubesse que teus olhos fariam isso tudo comigo, não teria olhado tão profundamente. Teria me resguardado. Teria deixado aquela saia esvoaçante no armário, só pra não passar a vergonha de ficar segurando-a enquanto você ria de mim. E, ruborizada, não teria de encarar teu sorriso tão lindo. Aquele rosto que a gente chega a xingar de raiva contida num soquinho no braço dizendo “não me faça me apaixonar”.

Cabeça na Lua, tua mão na minha em passeios pela rua e pronto. O estrago começa a ser feito quando você se pega olhando pro nada e se lembra de tudo. Tudo faz com que a pessoa retorne. Tudo faz com que o desejo se resuma a como-seria-se-ele-estivesse-aqui-agora. Se eu soubesse que você era desses de jogar feitiços nas moças por aí, não teria ficado ao teu alcance.

Conversa mole, certamente. Papo que te promete te fazer rainha, mas sem a mínima intenção de me tirar da plebe amorosa. E não adiantam as rosas, não adianta sair do carro só pra abrir a porta pra mim, não adiantam as ligações de preocupação. Se eu soubesse que você era desses que se faz de cavalheiro, não manteria minha pose de recatada. Te apertaria numa parede, te atacaria no escuro do cinema. Só pra te chocar.

Seria outra coisa, seria outra pessoa. Não daria tanta condição de você fazer isso tudo. Se eu soubesse que reinaria em mim – em pouco tempo – esse desejo de te fazer bem, de enrolar meus dedos nos teus cabelos, de contar as horas da madrugada, acordar já pensando em beijar de novo a tua boca. E de novo, e de novo, e de novo. Eu deveria saber, certamente.

Mas acontece que eu deixei. Acontece que eu não percebi. Acontece que passei a dormir com menos roupas para te dar menos trabalho ao entrar na minha cama durante meus sonhos. Acontece que eu não tive coragem de fugir com outro. Acontece que fui me abrindo aos poucos, me deixando vulnerável. Pom-pom-pom, já ouço a valsa da nossa dança enquanto a lagoa bate nas pedras e as ondas desabam na areia.

Acontece que meu coração sorriu pra você, e aí já era.

[ Gustavo Lacombe ]

Baseado numa canção de Chico Buarque.

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