Vejo a menina no meio da pista de dança, com os braços agitados e os cabelos no rosto. Ela sorri. Meus olhos são atraídos de uma forma que não sei se conseguirei prestar muita atenção em outra coisa nessa noite. “Ela é linda mesmo”, diz um amigo que se encosta e me flagra encarando demais. Ficamos os dois admirados; eu com a beleza e alegria dela, ele com a minha atenção.

E ela nem aí.

Rapidamente ele se entedia e muda o foco, enquanto eu começo a caminhar por devaneios. Logo, não estou mais naquela boate, mas em qualquer outro lugar em que apenas eu e ela estamos – ainda distantes, mas notadamente sozinhos. Eu estico a mão, tento chamá-la e ofereço meu sorriso. Ela dança e não vê. Eu faço menção de chegar mais perto, mas meus pés estão colados no chão. Ela dança.

Pisco e voltamos pra boate. As luzes piscando e o som alto são característicos do lugar, mas o álcool (ah, sempre ele) a essa altura já me faz ignorar os tímpanos reclamando da longa exposição aos decibéis e me dá a nítida sensação de que eu posso ouvir a respiração dela. Ofegante enquanto ainda dança.

Mas ela nem aí.

Como será que foi o dia dela?, eu penso. Será que ela está comemorando alguma coisa, é aniversário dela, recebeu alguma promoção, o namorado a largou, brigou com a mãe? Essas e várias outras perguntas encharcam meu cérebro até eu perceber que, naquele exato instante, ela não deve estar pensando em nada. Ela só quer dançar.

Até que acontece. Ela tira os cabelos do rosto, olha pra frente e me pega olhando-sorrindo pra ela. E sorri de novo. E na miragem do tempo, achando que posso estar admirando há umas três horas, caio na real de que ainda estamos no final da mesma música.  E acontece de novo, ela me olha de novo, ela sorri de novo, o coração quase sai pela boca de novo.

Mas parece que ela está mesmo “nem aí”.

A cabeça baixa, os olhos encontram o chão e tudo roda. O efeito do álcool bate certeiro e eu caio sentado. Penso na vergonha em estar tão bêbado que mal me aguento em pé e depois me acomete outro pensar, de que ela pode ter me achado um tarado que ficou a encarando um tempo enquanto ela dançava. Quase fico ali, como se ninguém estivesse me vendo, sentado naquele chão sujo e sozinho.

Uma mão toca meu ombro. Eu levanto meu rosto e, sim, dou de cara com ela perguntando se eu quero ajuda pra me levantar. Digo que sim e faço um esforço descomunal para me colocar novamente de pé. Tentando me recuperar do susto, sinto ela ali do meu lado. Sinto o perfume, ouço a respiração, vejo a cor dos olhos claramente. E é aí que ela diz:

– São 7:33h e esse som infernal que você está ouvindo é o seu despertador. Acorda que você tem aula.

E sorri, nem aí pra mim e com o fato de que eu vou abrir os olhos e não sei quando vou a encontrar de novo.

[ Gustavo Lacombe ]

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