A Vida é Uma Sequência de Aleatoriedades

De repente, um raio caiu sobre um prédio em Chapecó e transformado as churrasqueiras das varandas em lareiras ternamente acessas para esperar – desde Março – por Papai Noel e seus duendes mágicos. Nessa mesma hora, quando a eletricidade percorreu o primeiro centímetro do pára-raio que não parou nada com aquela chuva, uma simpática senhora tropeçou numa pedra portuguesa solta do calçadão do Centro Histórico de Porto Alegre, encontrando o chão com a face direita do rosto, mas indo de encontro a uma nota de cem reais que tinha caído de algum bolso distraído – tornou a dor da senhora um pouco mais branda, ainda que o ralado do joelho tenha ardido durante dias. No segundo sincronizado em que o primeiro milímetro quadrado de pele da senhora encostou o chão, um cachorro abocanhou um carteiro que fazia sua ronda na Pituba, em Salvador, e que sempre se precavia, mas estava com a cabeça nas nuvens por ter recebido poucas horas antes um abono no seu salário. A mordida gerou uma cicatriz que até hoje gera risadas entre amigos. No milésimo perfeito, como um bater de claquete de diretor de cinema, em que a boca do cachorro encontrou a mão do menino carteiro, dois para-choques se beijaram na Avenida João XXIII em Teresina, ao passo que os dois motoristas saíram bufando de seus respectivos veículos e dispostos a pôr a culpa um no outro, mas deram de cara com um caso mal resolvido e decidiram fingir que não se conheciam. O prejuízo já tinha sido grande demais na Vida. E, para completar nossa sequência de fatos aleatórios e que, se me perguntarem vou poder dizer, não tinham nada a ver um com o outro, no instante em que os motoristas sentiram o impacto da batida e começaram a se xingar mentalmente, eu dei de cara com ela atravessando o sinal perto da minha rua aqui em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Naquela hora, como se um raio tivesse trespassado meu peito e me feito enriquecer afetivamente pelo modo como as batidas do meu peito se alvoroçaram e pareciam correr alucinadamente de algum perigo iminente, eu senti que era algo muito diferente nascendo em mim. Mais que uma atração, o avesso da dor, o revés daquele que se julga feliz sozinho. Algo que se torna infinito na angústia de querer saber se pode, então, ser recíproco. Não haveria como descrever de outro modo: era Amor.

[ Gustavo Lacombe ]

“O Amor é Para os Raros”, meu segundo livro, pode ser encontrado aqui: http://bit.ly/AmorParaRaros

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