Era pra ser só mais uma escapulida.

Isabella chegou cedo na casa de Bernardo. Já tinha até a chave da porta. O porteiro já a conhecia e a chamava de Dona Bella. O apartamento, um dois quartos com vista pros fundos de um parque em Ipanema, não era luxuoso, mas era basicamente o suficiente. O suficiente para o IPTU ser um absurdo em tempos de Olimpíadas no Rio. Ela tomou um banho e deitou na cama – de calcinha preta e com uma camisa dele.

Nem dez minutos depois Bernardo chegou e já foi se atirando nos braços dela. O negócio entre eles sempre foi quente. Desde a primeira vez depois de um drink num bar do Flamengo e uma rápida troca de olhares. Isa não era daquelas que conseguia disfarçar o interesse. Bernardo também nunca foi dos mais quietos e santos. E o detalhe que mais instigava os dois estava bem perto do quarto no exato instante em que ela pulou pra cima dele.

O namorado de Isabella, Gabriel, tocou a campainha.

Bernardo foi atender a porta, mas acabou levando um empurrão logo que dobrou o corredor na sala. Entre xingamentos e ameaças, o namorado traído encontrou Isabella nua e fez questão de desfilar todo o seu repertório de palavrões e impropérios. Até que Gabriel voltou e os dois brigaram, ela se meteu no meio e acabou sendo empurrada contra a parede. Caiu sentada e ficou ali, chorando. Gabriel levou um soco e decidiu ir embora antes que levasse uma surra.

Não sem antes dizer um “não me procura mais, piranha!”.

A menina foi atrás. Se vestiu depressa e foi bater no apartamento do namorado (agora ex). Gritando perdão do corredor do prédio, transtornada com a besteira do que fez, quase botou a porta à baixo de tanto que a socou. Dona Roberta, vizinha de Gabriel, apareceu e disse que não ouviu ninguém chegar. Ela estava só perdendo tempo ali. Isabella decidiu esperar na portaria.

Era só uma escapulida. A desculpa era perfeita. Como será que ele descobriu?, ela pensava. O caso já durava uns bons meses e ela sempre tinha tomado cuidado. No começo achava errado, mas depois passou a gostar. Não soube a hora de parar, é bem verdade. Quando viu, não queria mais largar nenhum dos dois. Esteve errada desde sempre e não lembrava o porquê da traição, mas curtia os perigos e não achava que pudesse ser descoberta.

Foi. Gabriel achou uma mensagem primeiro. Nada de demais, tudo bem. Depois, viu o mesmo nome curtindo uma foto, comentando outra e, em seguida, aquilo tudo sendo apagado. Relevou. Mas quando Isa passou a não procurá-lo e a negar fogo quando os dois estavam juntos, soube que tinha algo errado. Ela, que sempre foi fogosa e tarada nele, de repente ficou fria. Pensou que poderia ser uma fase, mas os meses seguidos de desconfiança o fizeram duvidar de tudo.

Até das desculpas dos exames e médicos e encontros com amigas.

E aí, às 10 e meia da noite, chegando com um bafo de cerveja e dando de cara com a ex discutindo com o amante na portaria do seu prédio, Gabriel teve a certeza de que não fora ele quem tinha perdido – ele tinha se livrado de um problema. Passou perto de Bernardo e disse:

– Eu posso até ficar com saudade dela, mas obrigado por livrar de uma pessoa sem caráter.

E subiu. E chorou. E virou mais umas seis doses de vodka que tinha em casa antes de apagar no sofá. Isa passaria uns 40 minutos no corredor chorando e se lamentando. Bernardo partiu assim que se tocou do tamanho do problema que tinha criado. Dona Roberta foi dormir, certa de que no dia seguinte ele iria bater na porta da casa dela pedindo pelo café de sempre, mas dessa vez para rebater a pior das ressacas.

– Eu te falei, Gabriel. Essa menina só tinha cara de boazinha.
– Eu sei que você falou, Dona Beta… ai…

Depois desse dia, Gabriel nunca mais ousou misturar as coisas. Ser corno não era o problema. As pessoas esqueceriam e outra pessoa chegaria. A saudade não era o problema. Ele sabia que tinha se livrado de alguém ruim pra ele. Agora, misturar Amor e álcool, sim, era foda. Combinação que causa a pior das ressacas.

[ Gustavo Lacombe ]

Para ler mais de mim:
bit.do/Lacombe
Leve meus livros pra casa!

Anúncios