Conveniência não é Amor

Ela se deitou nos braços dele e ligou a televisão. Cansados da noite anterior depois de um aniversário de uma amiga do casal numa boate, decidiram aproveitar o domingo em casa. Preguiçoso como todo término de fim de semana, as horas pareciam se arrastar. Não havia nada a ser feito, nenhum trabalho que tinha sido levado para casa, nenhum convite pendente de amigos. Nem mesmo a vontade de fazerem algo a dois existia.

Naquele momento, cada um queria exatamente aquilo: nada.

Até aqui, eu sei, o problema não é o ócio ou a falta de desejo em realizarem algo juntos. Esses são estados que vão e voltam e fazem parte do comportamento de todo ser humano. E, sem dúvida alguma, todo casal vive seus dias de tédio. Esses relacionamentos que tem coisas novas, interessantes e dignas de filmes todos os dias só existem – adivinhem – nos filmes. Ah, e nas novelas.

O que mais chamou a atenção dela no final das contas foi a preguiça em sugerir qualquer programa. Satisfeita apenas por estar ali, mas sem aquele sentimento de completude que existe em namoro no começo, entendem? Sem saber definir se estava feliz ou triste, apenas satisfeita. O comercial de uma cervejaria com uma mulher bonita na praia fez o namorado dizer “queria tá na praia”.

Ela riu e pensou “pelo menos você quer alguma coisa”.

Que foi?, perguntou ele do sorriso. Nada, ela respondeu. Nunca é nada, retrucou. Ela deu um beijo na bochecha dele e pediu pra não começar. E se ajeitou de novo. E percebeu que aquela braço era só mais um braço. Não era especial. Não era porque era dele. Não era porque era ele. E ele, no mesmo movimento, apenas sentiu um corpo se ajeitando. Gostou do quentinho da proximidade, mas não se entusiasmou. Para os dois, era conveniente estar ali.

A preguiça, começaram a reparar, tinha se espalhado pela casa. Nas contas que venciam e demoravam a ser pagas, nos quadros que se acumulavam no chão esperando para serem pendurados, na louça que ficou pra lavar do almoço. Nos dois, que sabiam que era mais fácil ir levando do que encarar os problemas e resolvê-los. Tinham medo da solidão.

Os dois.

O instante em que os olhares se cruzaram foi o de maior tensão que tiveram em tempos. Nem mesmo quando rolava aquele clima antes do sexo tinha essa tensão toda. Ele já nem lembrava como era uma encarada daquelas e ela não recordava que ele poderia sustentar tão intensamente um olhar por tanto tempo. Souberam, ali, que ou eles conversavam ou aquilo tudo construído desabaria.

Mudaram o canal. Amanhã, quem sabe. Nenhum deles abriu a boca. Empurrou com a barriga. Não por culpa dele ou dela, mas de ambos. Não porque eles não se amavam mais, mas precisavam de uma conversa porque tudo tinha virado uma grande conveniência. Afinal, o que os amigos pensariam, a família acharia ou o chefe falaria? Afinal, aonde iriam parar depois de uma briga?

Ele, definitivamente, queria estar na praia. Sozinho. Ela também.

[ Gustavo Lacombe ]

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2 comentários sobre “Conveniência não é Amor

  1. Conheço tantos relacionamento assim que as vezes sinto medo de entrar em um relacionamento, e com o tempo o mesmo se tornar por conveniência.
    Eu sou do tipo que gosto do frio na barriga todo o tempo, daquela ansiedade de ver a pessoa sabe.. de estar junto. rs

    Como sempre, adoro seus textos..
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  2. Por um tempo, cri que meu relacionamento tivesse chegado nesse mesmo platô: me enganei. Para o bem ou para o mal, descobri que a vida a dois é feita de fases e de amadurecimentos. Sempre repito para a pessoa: depois de você, se chegarmos a terminar, não quero mais ninguém. E não quero mesmo. Digo isso também pelo que ela representa para mim, mas, principalmente, pelo que a nossa história, que dura já quatro anos, significa para mim. Caso isso aconteça, quero me dedicar apenas aos meus projetos: às minhas pesquisas, aos meus escritos, a um desejado romance. Parece que sou viúva de um marido só, como diria minha avó.

    Excelente texto, como o outro que li antes desse!

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